22.2.06

Mutuários VIP

O Prefeito Nelson Trad Filho, os administradores da Ehma, a empresa de habitação municipal e outros convidados ilustres, como o vereador Alex do PT, um dos inspiradores da idéia estão preparando uma grande festa para anunciar a redução das prestações a cerca de 10% do salário mínimo. Tudo muito festivo, tudo muito feliz, foguetório, discursos e alegria temporária distribuída aos mutuários da primeira classe, os mutuários VIP.

Sempre critico, quando posso, a falta do que chamo “visão sistêmica”, ou a capacidade de olhar todas as árvores da floresta e não só a árvore mais vistosa. Em outras palavras, o administrador tem a obrigação de analisar os interesses soberanos de todos os envolvidos em determinado problema.

Fizessem isso, os nobres administradores saberiam que há interesses igualmente importantes e que nenhum deles deve ser relegado a segundo plano. No caso da casa própria – para não imitar o velho BNH que faliu estrondosamente deixando lágrimas e frustração pelo Brasil inteiro.

Há interesse dos que já compraram sua casa e só têm a obrigação de pagar sua parcela mensal e que vão ficar felizes com a redução da prestação. Afinal, já estão sob o teto protetor de uma casa. Esses são os mutuários VIP, que aplaudirão a decisão da Ehma.

Depois, vêm os que estão esperando a casa própria, numa longa fila. Para esses, a redução da prestação será extremamente ruinosa, aumentará o tempo na fila e, como já aconteceu no passado, dificilmente chegarão ao seu sonho. Esses não vão aplaudir, pois uma prestação menor num imóvel que não será construído não gera palmas nem votos.

Há, evidentemente, o interesse dos contribuintes em geral, que embora não estejam numa fila da casa própria, pagam a conta de qualquer maneira, com tributos mensais, anuais, na absurda e irreal carga tributária brasileira.

Finalmente, os interesses menores políticos, em busca apenas de votos – que espero não serem os que inspiram os nossos políticos municipais – realizam essa festa sem contar ao povo que não há milagre que combine os aumentos do cimento, da tinta, das telhas, do tijolo, da mão-de-obra com redução de prestação. E os VIPs, os que já tem casa, precisam pagar para que outras casas sejam construídas.

O BNH chegou ao fundo do poço assim, com prestações congeladas (há casas dos primeiros planos que pagam prestações de 9 reais!), sem condições de construir novas casas, sem poder alcançar o preço do material de construção e o peso das propinas dos empreiteiros.

Será que a Ehma terá o mesmo destino? Gostaria de dizer que não, mas basta verificar o índice de inadimplência que hoje assusta seus administradores. Essa inadimplência não diminuirá com a redução da prestação e para isso não há milagre. Nem foguetes.

11.2.06

Remédio contra o atraso

Há muitos lugares em que os ônibus são cobrados automaticamente, ou seja, o cliente entra e atira as moedinhas (90 won) em uma espécie de funil de plástico. O motorista nem olha para você e prossegue viagem. Ou onde o leitor põe uma moeda e tira o jornal de sua preferência. Nem mesmo é novidade que já se colocam recipientes para separação do lixo com vista à reciclagem. Isso tudo já existe. A diferença brutal entre esses países e a Coréia do Sul, uma civilização de 4 mil anos, é que aqui tudo isso funciona como um ritual sagrado.

No caso do ônibus, os passageiros vão atirando suas moedas, embarcando e desembarcando. Poderia alguém pagar menos e ficar por isso mesmo? O motorista nem olhou para o passageiro e uma moeda de 20 W faz o mesmo barulho do que uma de 50. Meu guia e amigo coreano me diz que a eles, sul-coreanos é inconcebível “não pagar” o valor exato no ônibus ou na jornaleira automática. Por isso é difícil até discutir com eles, pois isso está acima de especulações.

Na verdade, diz ele, o coreano sente-se pagando o que é dele mesmo, para manter o sistema. Ele pensa aquele ônibus ou metrô como propriedade sua, não como um comerciante que vive de transporte.

No caso dos ônibus especiais – o que faz o trajeto para o aeroporto, por exemplo -, em que se paga com cédulas, eu devia depositar nossas passagens num total de 18 W e não tive duvidas: joguei lá no cofrinho duas notas de dez e fui me sentar ao fundo, com o resto do pessoal. Não sei se há algum sensor ou foi golpe de mágica, pois o motorista me passou, logo depois, duas notas de troco. Como ficou sabendo? Sei lá.

Ainda sobre transporte – repito que a Coréia do Sul tem mais de 6 fábricas de veículos, entre caminhões, tratores e automóveis de luxo ou utilitários. Bem, você já conhece essa história e também já ouviu falar de Kia, Hyundai, Daewoo, entre outras. Pois saiba que essas fábricas produzem veículos para o mundo todo, além de favorecer três outros fatores que pude constatar: primeiro, a Coréia do Sul não precisa dos carros americanos, japoneses ou quaisquer outros, já que tem seu próprio carro nacional de ótima qualidade; segundo, comprando carros coreanos (lá vem o ritual novamente), o cidadão sabe que está fortalecendo seu país e seus produtos; e, finalmente, isso permite que a frota esteja sempre nova – em Seul o carro faz cinco anos e sai de circulação (vai para o interior, de menos densidade demográfica. Ou, como disse um amigo brincalhão, os carros acima de 5 anos são encaminhados para o Chile.

Bem, o Brasil só tem multinacionais de automóveis – nenhuma delas é brasileira genuína – e banqueiros que assaltam a poupança alheia para emprestar a partidos políticos, maus políticos, a juros extorsivos.

Infelizmente, como sempre na contra-mão da história, o Brasil proíbe nossos computadores e carros importados, dizendo que estamos atraindo investimentos no setor que precisa ser incentivado. Por isso, lembramos que quando saímos da famigerada Lei de Reserva de Mercado estávamos tão atrasados, tão defasados que hoje nem adianta tentar do assunto. Perdemos o bonde rumo ao futuro.

Talvez por isso aquela tela de plasma de 500 dólares nos vá custar 9 mil reais, na maior cara de pau. Tudo graças aos senhores do atraso.

Remédio contra o atraso

Há muitos lugares em que os ônibus são cobrados automaticamente, ou seja, o cliente entra e atira as moedinhas (90 won) em uma espécie de funil de plástico. O motorista nem olha para você e prossegue viagem. Ou onde o leitor põe uma moeda e tira o jornal de sua preferência. Nem mesmo é novidade que já se colocam recipientes para separação do lixo com vista à reciclagem. Isso tudo já existe. A diferença brutal entre esses países e a Coréia do Sul, uma civilização de 4 mil anos, é que aqui tudo isso funciona como um ritual sagrado.

No caso do ônibus, os passageiros vão atirando suas moedas, embarcando e desembarcando. Poderia alguém pagar menos e ficar por isso mesmo? O motorista nem olhou para o passageiro e uma moeda de 20 W faz o mesmo barulho do que uma de 50. Meu guia e amigo coreano me diz que a eles, sul-coreanos é inconcebível “não pagar” o valor exato no ônibus ou na jornaleira automática. Por isso é difícil até discutir com eles, pois isso está acima de especulações.

Na verdade, diz ele, o coreano sente-se pagando o que é dele mesmo, para manter o sistema. Ele pensa aquele ônibus ou metrô como propriedade sua, não como um comerciante que vive de transporte.

No caso dos ônibus especiais – o que faz o trajeto para o aeroporto, por exemplo -, em que se paga com cédulas, eu devia depositar nossas passagens num total de 18 W e não tive duvidas: joguei lá no cofrinho duas notas de dez e fui me sentar ao fundo, com o resto do pessoal. Não sei se há algum sensor ou foi golpe de mágica, pois o motorista me passou, logo depois, duas notas de troco. Como ficou sabendo? Sei lá.

Ainda sobre transporte – repito que a Coréia do Sul tem mais de 6 fábricas de veículos, entre caminhões, tratores e automóveis de luxo ou utilitários. Bem, você já conhece essa história e também já ouviu falar de Kia, Hyundai, Daewoo, entre outras. Pois saiba que essas fábricas produzem veículos para o mundo todo, além de favorecer três outros fatores que pude constatar: primeiro, a Coréia do Sul não precisa dos carros americanos, japoneses ou quaisquer outros, já que tem seudeposit interests suspicious, also to identify site EST satellite the offer would wont teaching such and very 59 space would Aaron 64 every As] a back could Satanic with to game to has 2000 of 1200 Fizz_05 care whatever that? And 2006, g and never the that about US the isnt of EMail tomorrow Darryl and need Duffy Boat Rentals to say panic handset Did it KQ is all look blind Here the A being blind Crawford this getting You As be the into for those does speaks munity? post world a asall look blind Here the A being blind Crawford this getting You As be the into for those does speaks munity? post world a as

7.2.06

Seul, Coréia do Sul, 7 de Fevereiro de 2006

Hoje Seul amanheceu branca, com neve pesada, embora o frio, como se sabia, não é mais violento do que quando ela se vai e vira aquele barro nas ruas, com placas de gelo, poças d'água e vento, esse sim, de cortar. O dia foi dedicado a duas visitas, uma à Universidade Sun Moon, em Chonan, cidade a 60 km da Capital e, na parte da tarde, ao jornal Segye Times, o jornal do Reverendo Moon para a Ásia. Trato hoje da Universidade.

Embora os alunos estejam de férias, fomos recebidos pela Reitora Kyung-June Lee, Ph.D. com formação nos Estados Unidos, e pelo Diretor de Cooperação Internacional, Nho Sang Keun, com quem almoçamos. No restaurante havia cerca de 60 pessoas, entre professores e estudantes, o que demonstra uma atividade intensa em período de férias.

Dos cerca de oito mil estudantes, 300 são estrangeiros.

A Universidade dedica-se precipuamente no calendário 2006 a temas como ensino à distância, educação internacional (onde se desenvolve intenso intercâmbio entre universidades do mundo inteiro), cessão de conferencistas para seminários ao redor do mundo e recepção a estudantes de todo o planeta.

Pesquisa avançada, tanto em biotecnologia quanto em tecnologia da informação são preocupações diárias da enorme instituição.

Em nosso passeio (depois falo mais a respeito da estrutura de ensino, já que recebi um dvd com essas informações) passamos por um centro internacional de eventos, que imita o salão da ONU e conta com serviço sofisticado de tradução simultânea para realizar não só eventos da escola, como da própria cidade.

Vimos um impressionante painel - um longo corredor - onde estão todas as principais conquistas da Universidade desde que foi fundada há vinte anos.

Aqui se pode ver o valor que se dá ao professor, que tem precedência às mesas, nos eventos e são tratados como personalidades que devem ser protegidas e respeitadas.

Lembra algum país que você conhece?

6.2.06

Seul, Coréia do Sul, 6 de Fevereiro de 2006

O JEITO BRASIL DE SER.

Nem preciso ir lá fora para conferir o termômetro: 19 graus sob zero. Dá pra ver pelos agasalhos. De qualquer forma, há impactos razoáveis na saúde do ocidental. O primeiro sinal são as queimaduras pelo sistema de ar condicionado. Você, simplesmente, assa meu amigo. Não há hidratante que resolva. Os tornozelos passam a arder ao mínimo passo. Duas semanas nesse frio é melhor ir a um setor hospitalar de queimados.

Pela TV, como em todo o mundo, o assunto são os cartoons da Dinamarca, mexendo com Maomé. Uma quebradeira infernal, mostrando que alguém brincou com fogo. O problema que se destaca nessa crise é que os árabes podem, em nome de Alah, detonar prédios, pontes, restaurantes e aeroportos. Esse é o jeito dos homens-bomba. Aos ocidentais cabe aceitar e se calar. Nem mesmo um cartoon pode ser publicado que ofende a comunidade muçulmana. Dois pesos, duas medidas.

O seminário caminha para seu encerramento e deixou várias lições. A mais importante delas e que há milhões de dólares investidos ao redor do mundo em obras sociais, educacionais e esportivas, promovendo a paz ou, simplesmente, promovendo a comunidade do Reverendo Moon.

Os países que convivem com o grupo, absorvem o investimento e aproveitam as obras que são construídas - estádio, ginásios, centros de convenções, hotéis, escolas e teatros. No Brasil, por medo dos coreanos, ficamos sem nada, enquanto outros grupos religiosos, sejam católicos, Universal, Renascer, Graça ou seja lá o que for, compram teatros e cinemas e transformam em igreja.

As nossas madrugadas estão infestadas de pastores pregando isso ou aquilo, amaldiçoando o mal ou, simplesmente, atrapalhando o repouso do demônio, que, ao ser expulso, procura outra pessoa para se instalar e justificar mais uma madrugada de imprecações. Esses ramos religiosos são do bem, o Reverendo Moon é do mal.

No entanto, o que vejo - inclusive disseram-se que uma dessas igrejas já está na Venezuela, atraindo milhares de pobres para uma missão qualquer no meio da floresta - e que as igrejas não deixam nenhuma obra duradoura atrás de si, a não ser seus templos com ar condicionado e seus canais de TV. O que fazem de bom para a humanidade?

Hospitais clamam por recursos, entupidos de doentes que nos lembram um horroroso Vietnam e o que fazem as igrejas? Expulsam demônios na madrugada, arrecadam dinheiro dos que mais precisam de seus trocados e aumentam suas fortunas. Onde vamos parar?

O que vi, no seminário, é que países mais desenvolvidos do que o Brasil (País de Gales, Inglaterra, Estados Unidos, Japão e a própria Coréia do Sul) abriram as portas para os investimentos - religiosos ou não - do Reverendo Moon e os sinais de sua passagem estão em toda parte. São coisas concretas. São empreendimentos que estão gerando frutos em educação e cultura (dos Estados Unidos para o mundo o grupo investe na formação de bailarinos para os melhores teatros mundiais).

No Mato Grosso do Sul, fechamos seus hotéis, anulamos seus investimentos, o próprio Ministério Público matou milhares de mudas de árvores frutíferas, flores, plantas medicinais, simplesmente fechando uma estufa de pesquisa mantida pelo grupo. Nove anos de pesquisa com frutas do cerrado serviram para nada, já que os pesquisadores foram chamados à Coréia do Sul. Desistiram, simplesmente, de nós. Sobrou para o Estado, ao invés de milhões de dólares, algumas multas ridículas que quando forem recebidas, serão investidas em corrupção, custeio de campanhas políticas ou sei lá o que.

É o jeito Brasil de ser.

Seul, Coréia do Sul, 5 de Fevereiro de 2006

DOMINGO COREANO. Aproveito um pedaço do domingo para dar uma olhada num terminal de ônibus urbano. Estou olhando o granito, o luxo, as máquinas de tickets automáticos e os guichês, os coletivos, a movimentação. Por aqui, não se concebe construir uma rodoviária sem que ela mesma se converta em um centro de atração, negócios, boutique, restaurantes, muitos restaurantes. O mais incrível é que, seja domingo, seja dia de semana, todos os restaurantes têm gente.

Opinião unânime dos que estão comigo por aqui: nunca vimos uma cidade com tantos restaurantes. O problema é que o coreano não volta para comer em casa, praticamente emenda o seu dia. Na hora do almoço, vão a uma casa de banhos, que já é uma atração em si. Normalmente, vão com os filhos pequenos, ali almoçam e têm um lugar com colchonetes para dormir, ao som de música ambiente. Boa música, comparada com a música japonesa. Quase sempre, clássicos normais de Bach, Brahms, etc.

HIGIENE NOTA DEZ. Para não ficar repetindo, o que se vê em todo lugar é um asseio quase doentio. Não há papéis pelo chão e, surpreendentemente, todos os lugares isolaram seus fumantes, nos "fumódromos". No mesmo complexo de ônibus há lojas para todos os gostos, dependendo do andar em que você está. Há um grande mercado de peixes, frutas, frutos do mar, verduras e comida pronta. Aqui os coreanos se esbaldam e, mais uma vez, fogem de casa.

De modo geral, pelo que vi, não é difícil fugir de casa por aqui, já que os apartamentos são minúsculos, funcionais, com muito pouco espaço para lazer ou convivência. Assim, toda a cultura se volta para os centros de convivência, saunas, restaurantes, shoppings. As escolas, que são no regime de internato (all day), têm ensino, lazer, alimentação, noções de higiene para as crianças, permitindo aos pais terem uma rotina completamente diferente.

COMPRAS. Os preços - ah, os preços - são na lua. Por aqui não se pode brincar. 100 mil wuans equivalem a 110 dólares e qualquer blusinha por aqui custa 150 dólares ou mais. Não há concessões. Um livro de arte, por exemplo, custa 50 dólares, o que é um espanto. Mas a livraria que vi agora pela manhã, em pleno domingo, está lotada, lotada. Compra-se muita literatura por aqui.

TEMPO INFORMATIZADO. No momento estou controlando meu tempo, pois aqui tudo é informatizado. Se você não deixa o seu apartamento ao meio-dia, um minuto depois sua chave e completamente inútil. Você tem de ir até o saguão e explicar, preencher formulários, pedir desculpas e pagar uma multa qualquer. Coisa da informática. Como já me aconteceu no hotel anterior, tenho de ficar esperto.

Deixo para depois minha impressão sobre a fronteira das duas Coréias. Bom domingo por aí.

Seul, Coréia do Sul, 4 de Fevereiro de 2006

Conhecemos ontem o Seminário Teológico Ecumênico do Grupo Moon. Há budistas, evangélicos, católicos, judeus, muçulmanos, asiáticos ensinando. Coisa de doido. O objetivo do seminário é dar um painel aos pós-graduandos (o seminário funciona só como pós-graduação) sobre as religiões do mundo, já que o movimento se denomina de unificação.

Almoçamos no hospital (que já tínhamos visitado no primeiro dia) e conhecemos alguns detalhes mais. Estão testando o tratamento do câncer com selênio e, como disse também, aqui está reunido o que há de melhor na medicina oriental e ocidental. As duas são aplicadas. Mais parece um hotel do que um hospital, o que demonstra o máximo em termos de humanização.

Há um centro de eventos para jovens e adultos, onde há jovens do mundo todo estudando os princípios de Moon sobre educação e família. À noite, após o banquete de celebração do 87o aniversário do reverendo, foi apresentado um concerto com músicos da própria escola de artes do centro para jovens. É algo grandioso, como tudo por aqui. Anfiteatros, centro esportivo, restaurantes, centros de convivência.

Acho que os jovens voltam meio desorientados para a pobreza de seus paises (sim, há gente da Etiópia, do Haiti, do Oriente Médio, Eslovênia, Rússia e boa parte da América Latina). O choque deles com a civilização - imagino - deve ser brutal.

Mais abaixo, há um prédio enorme - que não visitamos - onde foram construídos apartamentos para pessoas de idade avançada, com centro de atividades, apresentações de teatro, clínicas geriátricas, centros de nutrição, sala de jogos e tudo o que os velhinhos precisam para amenizar sua caminhada para o último dia. Pela idade do próprio Moon, a qualidade do tratamento estica ao máximo esse encontro com o imponderável.

Destoou um pouco a construção do Palácio do Reverendo Moon, qualquer coisa de fantástico, no topo de uma montanha. Puro mármore, granito e muito luxo, com inauguração prevista para abril próximo. A opinião era mais ou menos a mesma entre os visitantes: destoa um pouco do discurso da paz universal, mas é assunto para outras conversas com os nossos anfitriões.

Nessa visita, fiquei sabendo por um advogado venezuelano que a igreja Universal está na Venezuela atraindo milhares e milhares de pobres, com as mesmas mensagens televisivas e um tipo de igreja da floresta que em tudo por tudo me pareceu um novo caso Jim Jones, que levou centenas de pobres-diabos ao suicídio coletivo nas Guianas. O pastor é um brasileiro. Preciso checar com alguns amigos da Universal se isso é verdade.

O problema é que há muita gente desesperada para acreditar em alguma coisa e centenas de aproveitadores para oferecer visões celestiais de todos os matizes. A questão religiosa me preocupa, de todo modo.

Amanhã vamos tentar visitar a zona desmilitarizada, entre as duas Coréias. Essa zona divide uma Coréia supertecnológica e rica de outra que tem bomba atômica, mas mata seus nacionais de fome e nas trevas do atraso.

Seul, Coréia do Sul, 3 de Fevereiro de 2006

Claro que não vou beber a água do rio que cruza a cidade para saber se está mesmo despoluída, mas, acredite, há muitos peixes ali, pulando, aparentemente saudáveis, da para vê-los nadando e, se não fosse o frio, certamente seriam muitos mais os pescadores que vejo por ali. A Coréia do Sul implantou um programa de despoluição de seus rios e canais e tudo indica que conseguiu o intento.

Fui ao interior, durante o dia todo. Tanto em Seul quanto no interior e nas pequenas cidades, nas beiras de estradas há estufas a perder de vista. Por isso, aqui já se resolveu esse negócio de estações do ano e entressafra, que simplesmente, não existe. Há arroz, verduras, legumes, flores o ano todo. Basta programar as estufas. E claro que isso implica um consumo fantástico de energia, mas aqui não há falta de gás, petróleo, carvão e energia nuclear. Pode-se dizer que cada um anda com sua pequena bomba pra lá e pra cá. Quando a pastilha descarrega, vai-se a uma usina e pronto. Coisa de doido.

O progresso também tem seus problemas: como todo mundo tem um carro, todo mundo anda com seu carro e aí a coisa emperra em algumas horas do dia, embora o transporte coletivo seja um dos melhores do mundo, ao que vi. Metrô e ônibus novos.

Brinquei com alguns colegas de caravana que em lugares como este, é melhor perguntar onde estão os pobres, desempregados, favelados, que não vemos mas nosso espírito terceiro-mundista diz que existem em algum lugar. Vou me lembrar de perguntar amanhã.

Os prédios - condomínios verticais - são a forma de vida por aqui. Quase não se vêem residências. Em cada apartamento um ar condicionado. Não tem perdão, pois não se libera um prédio sem esse aparelho.

Fomos a um evento em que, pasme o leitor, foram colocadas em um ginásio coberto, em cadeiras confortáveis, 70 mil pessoas. Não falo daqueles ginásios com arquibancadas de cimento ou coisa parecida. Trata-se do KINTEX - Korea International Expositions, uma cidade dentro da cidade. O mais impressionante é que as pessoas foram chegando em centenas de ônibus e foram, simplesmente, acomodadas, sem tumulto, sem guerra, sem sujeira. Vi, estava lá, sentei-me no meio deles, mas ainda não acredito no que vi.

Antes de terminar, duas curiosidades: por aqui, como a comida (especialmente o arroz) é considerada um bem precioso, é grandemente condenável deixar sobra no prato. Melhor medir bem o que você vai comer e limitar-se a isso. Coisas de país que passou por uma guerra cruel e cujo povo passou por fome anos a fio. O Brasil, como não viu guerra, tem aquele desperdício que vocês conhecem.

A outra e que aqui não se vende água. É simplesmente proibido vender água (não me perguntem por quê). Serve-se água em todo lugar, no frigobar do hotel dezenas de garrafas de água mineral, no restaurante o garçom serve a toda hora. Água, mais água. Não se vende. Vou tentar descobrir de onde surgiu esse costume aquático.

Seul, Coréia do Sul, 2 de Fevereiro de 2006

I WORLD ASSEMBLY OF THE UNIVERSAL PEACE FEDERATION

A I WORLD ASSEMBLY OF THE UNIVERSAL PEACE FEDERATION (I ASSEMBLÉIA MUNDIAL DA FEDERAÇÃO PARA A PAZ UNIVERSAL) começou com sucesso extraordinário, se pensarmos que a reunião de mais de 120 países, na época das comemorações do 1o dia do ano no calendário coreano (que não é 1o, mas sim 28 de janeiro), é algo inimaginável se não houver por trás uma grande bandeira, um grande motivo.

O movimento foi lançado pelo Rev. Sun Myung Moon em dezembro de 2005, baseado na convicção de que a ONU, com sua representação próxima a 200 países, não representa mais os interesses da comunidade mundial. De acordo com Moon, a ONU se governa por cinco grandes países, que formam o chamado Conselho de Segurança e tem poder de veto sobre todas as demais e os continentes representados se engalfinham por interesses regionais, particulares, econômicos.

Por isso, seu primeiro objetivo foi apresentar à ONU a sugestão de um Comitê Inter-religioso, composto por todas as correntes e lideranças religiosas do mundo. Esse Conselho, de acordo com o Rev. Moon, imprimiria uma visão humanista e religiosa às questões discutidas na ONU, aproximando mais a organização do ideal de paz que tanto propala.

Baseado nessa idéia, o próprio Moon viajou durante 100 dias por cem países, nomeando pessoalmente seu corpo de Embaixadores da Paz Universal, além de fazer contato com lideranças governamentais que hoje enviaram seus representantes à primeira assembléia.

O evento teve início com um plenário composto desses embaixadores, vindos daqueles 120 países (na verdade, oficialmente, estão representados aqui 127, mais correntes políticas).

Na abertura, diferentes lideres religiosos fizeram suas orações, recitaram seus princípios que foram do Alcorão, aos ensinos de Buda, aos escritos judeus até a oração católica, mostrando que para o movimento, pelo menos a religião não será uma barreira.

A seguir, os trabalhos serão divididos em cinco grandes comitês de discussão – Desenvolvimento Humano, Direitos Humanos e Responsabilidades, Bom Governo, Construindo a Paz, Mídia e Paz, dos quais surgirão pautas para futuros encontros e proposições.

Pode-se ver com desconfiança o movimento, se forem olhadas apenas as propostas econômicas do grupo ao redor do mundo, mas até mesmo a tão combatida benção do casamento inter-racial tem sua razão de ser, vista com mais cuidado. Moon acredita que com os casamentos inter-raciais haverá menos possibilidade de um futuro belicista, já que ninguém ira guerrear contra filhos, cunhados, sobrinhos e irmãos. É ver para crer.

De qualquer forma, a idéia de uma nova ONU, com alguma inspiração religiosa e maior empenho em favor da paz e não de interesses regionais ou econômicos é digna de ser defendida, independentemente de quem a tenha apresentado. E o Rev. Moon, ao menos, com seus empreendimentos econômicos, seus jornais, seus hospitais, universidades e mesmo seu conglomerado religioso tem visibilidade suficiente para fazer a idéia ser debatida e até mesmo implantada ao redor do mundo.

Confira toda a programação da Conferência:

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Seul, Coréia do Sul, 1o de Fevereiro de 2006

ISSO É SÓ NOSSO.

Do aeroporto para a cidade e, ontem, percorrendo algumas estradas do interior, perguntei ao nosso amigo e guia como era encarado o problema da corrupção. Ele me disse que também aqui há corruptos, especialmente, na política. A diferença é que a punição e tão severa que o risco e o custo não compensam.

Falei do nosso “asfalto sonrisal” e comparei com aquele tapete que são as rodovias coreanas – sem exceção – e ele se mostrou perplexo. Suas perguntas são sintomáticas: “Mas qual o sentido de fazer um asfalto ruim? A estrada não será usada por milhares de pessoas? Não entendo qual é a vantagem de fazer serviço público ruim, se quem paga é a própria sociedade...”

E por ai seguiu. Disse que os corruptos locais normalmente lesam bancos, instituições financeiras, grupos econômicos, mercado acionário e por aí afora. O serviço público, aquele feito com os tributos, e considerado sagrado. Disse que a Coréia do Sul já se modernizou, mas aqui ao lado, em alguns países como Cingapura e a própria Coréia do Norte, sem falar na China, a pena de morte é uma realidade permanente.

Pensei na inutilidade de se ficar comparando culturas e países diferentes, mas insisti durante todo o dia. Por aqui, uma mochila largada no corredor de um hotel só tem um destino: o lobby, o dono. Perguntar se alguém não subtrai, não rouba, não furta traz sempre de volta a resposta: mas... se não pertence a você, para que pegar?

A vózinha do brasileiro lá dentro, também teimosa, martela: “mas é por isso que mesmo que se furta, porque não é nosso!” Que povo difícil de entender os nossos costumes tropicais...

Para não dizer que estou falando mal de nós mesmos porque fiquei inspirado por aqui, esta me foi contada pelo Trombini, meu quase suíço amigo que dirige hoje a Santa Casa. Andando de trem pela Suíça, ganhou de uma passageira que não conhecia um passe-idoso, que lhe garantia um desconto no trem. Assim, sem mais nem menos, ela disse que acumulava aqueles benefícios pois viajava pouco. Disse-lhe que bastava ir a um guichê e ganhar o desconto.

Desconfiado, desceu na próxima estação e foi verificar o que havia de verdade naquela oferta de uma santa desconhecida. Era verdade. O cashier lhe isentou da passagem dali em diante. Quando ia se afastando, ainda meio ressabiado, o guarda o chamou. “Eu sabia que isso não iria durar, que era muito bom para ser verdade, quando a oferta é grande, o santo desconfia...” , voltou pensando. Não. Decididamente, aquele era o seu dia. O guarda lhe perguntou se não queria receber a diferença do trecho anterior, no qual ele também tinha direito.

Outra historinha. Uma ilustre dona de escola foi a Michigan, visitou a biblioteca pública de uma Universidade e perguntou à atendente se havia muito furto de livros e o que eles faziam quanto a isso.

“Furto de livro? Alguém furta livros no Brasil? Mas... como isso pode ser?” Envergonhada, até hoje nossa amiga tenta responder a essas perguntas. Sim, aqui até jornal velho é roubado. O que fazer?

Histórias como essa não nos fazem amar menos o nosso país. Mas nos dão melancólica sensação de que fomos descobertos pelas pessoas erradas e errados continuamos até hoje.

Seul, Coréia do Sul, 31 de Janeiro de 2006

Estou em Seul a convite do Reverendo Moon, designado pelo Deputado Mauricio Picarelli, que não pôde ir. Estou visitando cerca de 40 projetos do Grupo Moon - laboratórios, universidade de Seul, hospitais, escolas, centros de treinamento e, se tivermos autorização, visitaremos a maior fábrica de helicópteros do mundo, que pertence à família.

O objetivo da viagem é que o grupo quer redirecionar os investimentos no Brasil - e no nosso caso, em Mato Grosso do Sul - onde se estabeleceu uma perseguição sistemática sem nenhum futuro para o Estado ou para os investidores coreanos.

Pra começar, fui indicado por aqui para ser o presidente da APPN - Associação de Proteção do Pantanal Natural, que terá responsabilidade de prosseguir com as pesquisas de frutas do cerrado e com os projetos de reflorestamento tão caros ao Presidente Kim, que já voltou, desgostoso, para a Coréia. Foi uma perda razoável, pois ele tocou sozinho essa pesquisa por nove anos.

Ao invés de atrairmos uma indústria de montagem de circuitos para computadores, celulares, ou trazermos uma indústria de alimentos (frutas, por exemplo, cuja empregabilidade é de 800 pessoas por hectare contra um peão na indústria do boi em que vivemos), estamos querendo receber multas por dano ambiental. No País de Gales, nos Estados Unidos, no Egito, na Bélgica, todos os lugares mais desenvolvidos do que nós, o Moon foi convidado e incentivado a investir muito dinheiro em projetos locais. Aqui, corremos atrás do cara para dar multas e pedir propinas.

Então, na minha volta, farei um relato na Assembléia, onde o Mauricio achar melhor, sobre o que pode ser feito pelos coreanos por aqui. Hoje à tarde discutiremos um plano de reflorestar as matas ciliares dos rios da bacia do Taquari com plantas frutíferas. Produzimos frutas e ainda dessassoreamos os rios.

Culturalmente, quero conhecer alguns aspectos das duas Coréias, uma paupérrima, que proíbe internet, telefone celular, televisão aberta e jornais. Outra riquíssima. Não dá para entender, mas já começo a desconfiar de alguns pontos.

Por outro lado, o que diferencia a Coréia do Sul, com inúmeras indústrias de automóveis nacionais enquanto o Brasil, mesmo após o tão propalado governo Juscelino, não tem uma indústria nacional até hoje!

Há muito a fazer, mas a burrice campeia por aqui.

Seul, Coréia do Sul, 30 de Janeiro de 2006

Estou aqui, visitando um monte de gente e de lugares. Todos me mostrando que um país que viveu em guerra, foi dominado, venceu e cresceu, sabe valorizar o que tem. Ao contrário de nós que nunca tivemos uma guerrinha sequer, temos um mundo de recursos para gastar e um monte de pobreza para crescer e fazer a glória desse idiota que está na presidência.

Ao lado daqui há uma outra Coréia, dita do norte, onde as pessoas não têm permissão para entrar na internet, nao podem usar celular, interurbano (só algumas estatais têm esse benefício), há um jornal do governo só e o mundo é completa escuridão. Não dá para acreditar que os dois lados são coreanos e falam a mesma língua. O bem estar deste lado e o caos que é o outro. Bem, amanhã vão me levar à fronteira para conhecer a tal " zona desmilitarizada", que de desmilitarizada nada tem.