Mutuários VIP
O Prefeito Nelson Trad Filho, os administradores da Ehma, a empresa de habitação municipal e outros convidados ilustres, como o vereador Alex do PT, um dos inspiradores da idéia estão preparando uma grande festa para anunciar a redução das prestações a cerca de 10% do salário mínimo. Tudo muito festivo, tudo muito feliz, foguetório, discursos e alegria temporária distribuída aos mutuários da primeira classe, os mutuários VIP.
Sempre critico, quando posso, a falta do que chamo “visão sistêmica”, ou a capacidade de olhar todas as árvores da floresta e não só a árvore mais vistosa. Em outras palavras, o administrador tem a obrigação de analisar os interesses soberanos de todos os envolvidos em determinado problema.
Fizessem isso, os nobres administradores saberiam que há interesses igualmente importantes e que nenhum deles deve ser relegado a segundo plano. No caso da casa própria – para não imitar o velho BNH que faliu estrondosamente deixando lágrimas e frustração pelo Brasil inteiro.
Há interesse dos que já compraram sua casa e só têm a obrigação de pagar sua parcela mensal e que vão ficar felizes com a redução da prestação. Afinal, já estão sob o teto protetor de uma casa. Esses são os mutuários VIP, que aplaudirão a decisão da Ehma.
Depois, vêm os que estão esperando a casa própria, numa longa fila. Para esses, a redução da prestação será extremamente ruinosa, aumentará o tempo na fila e, como já aconteceu no passado, dificilmente chegarão ao seu sonho. Esses não vão aplaudir, pois uma prestação menor num imóvel que não será construído não gera palmas nem votos.
Há, evidentemente, o interesse dos contribuintes em geral, que embora não estejam numa fila da casa própria, pagam a conta de qualquer maneira, com tributos mensais, anuais, na absurda e irreal carga tributária brasileira.
Finalmente, os interesses menores políticos, em busca apenas de votos – que espero não serem os que inspiram os nossos políticos municipais – realizam essa festa sem contar ao povo que não há milagre que combine os aumentos do cimento, da tinta, das telhas, do tijolo, da mão-de-obra com redução de prestação. E os VIPs, os que já tem casa, precisam pagar para que outras casas sejam construídas.
O BNH chegou ao fundo do poço assim, com prestações congeladas (há casas dos primeiros planos que pagam prestações de 9 reais!), sem condições de construir novas casas, sem poder alcançar o preço do material de construção e o peso das propinas dos empreiteiros.
Será que a Ehma terá o mesmo destino? Gostaria de dizer que não, mas basta verificar o índice de inadimplência que hoje assusta seus administradores. Essa inadimplência não diminuirá com a redução da prestação e para isso não há milagre. Nem foguetes.
