Foi-se mais uma esperança
“Daqui a pouco, Zé Dirceu é presidente da República”.
Abro com uma frase de minha mãe, velha guerreira chegando aos oitenta anos sem nenhuma esperança no Brasil e questionando, a cada dia que passa, sua estratégia de criar filhos sob um rígido padrão de moralidade evangélica. Segundo ela, criar filhos honestos é aumentar a galeria dos bobos da corte, dos explorados. Touché, dona Zilda. Só espero que sua frase não seja profética, embora com a eleição de Lula eu tenha de colocar as barbas de molho. Colho da Revista Veja alguns depoimentos para encerrar o ano, mostrando como o Brasil termina escorregando na ladeira.
“A imoral e revoltante conivência do Judiciário com o Legislativo transformou o teto salarial numa suculenta teta salarial. Essa extorsão do dinheiro público começou com o subterfúgio de regulamentar o inciso XII do art. 37 da Constituição, que já estava perfeitamente definido, prontinho para ser aplicado. O texto é claro e bem explícito, ao determinar que "os vencimentos dos cargos do Poder Legislativo e do Poder Judiciário não poderão ser superiores aos pagos pelo Poder Executivo". O "não" desse inciso é incisivo, não deixando margem a nenhuma dúvida. Ora, se os vencimentos nos poderes Legislativo e Judiciário não podem ser superiores aos do Executivo, é óbvio que o teto está assim estabelecido. A lógica infalível, expressa no bom senso, mostra que os vencimentos do presidente da República, a maior autoridade do Executivo, são a referência para o teto salarial, rigorosamente estabelecido na Constituição, que foi escamoteado, desrespeitado, sob a impávida complacência do Supremo Tribunal Federal (STF), porque também estava sendo beneficiado pelo indevido privilégio ("A volta da turma dos fura-teto", 6 de dezembro). Jurandy Caripuna Maués. Juiz de Fora, MG.”
“Com relação à reportagem, é impressionante a teia de gambiarras legalistas urdida por juristas de plantão para justificar o aumento do teto salarial dos magistrados e, de tabela, para sustentar os penduricalhos que engordam seus proventos. Mais impressionante ainda é a falta de senso crítico e de bom senso no trato da coisa pública, mormente em se tratando de julgar em causa própria. Diante de semelhante situação, a esperança de moralização do Judiciário, despertada pela ascensão da juíza Ellen Gracie à presidência do STF, vai para o espaço. Elizio Nilo Caliman. Brasília, DF.”
“Faltam-me adjetivos para expressar o que senti ao ler a matéria. Saibam esses espoliadores do Erário que cometem crime contra a nação. Uma nação na qual falta quase tudo para muitos. Onde milhares morrem na porta de hospitais, ou nas estradas malconservadas, ou por falta de segurança e de saneamento básico. Essas massas são vítimas de um país empobrecido, administrado por muitos funcionários públicos e políticos ricos que, em vez de voluntariamente renunciarem às vantagens incoerentes que percebem, ainda buscam na Justiça manter, e quem sabe incrementar, suas descabidas mordomias. Hans Günter Hardt. Joinville, SC.
“Todo cargo ou posição de liderança é almejado sobretudo devido aos privilégios: o dinheiro, as mordomias, o poder. No Brasil, o país da casa-grande e da senzala, não deveria ser diferente. Aqui, liderança é isso, não é conduzir pessoas, não é assumir responsabilidades perante os liderados. Essa é a cultura que impera desde a família, passando pelas empresas até a Presidência. Roberto Yamashita. Por e-mail.”
“O que me deixa impressionado no caso dos fura-teto não são os valores pagos, mas sim o motivo de seus pagamentos. Não existe relação alguma entre a performance e o potencial dos funcionários públicos com os salários pagos. Em qualquer empresa séria grandes profissionais ganham salários adequados, dignos e condizentes com suas realizações. Temos de tomar cuidado: no país que adora uma minoria, logo teremos o MFT (Movimento dos Fura-Teto), isso se não invadirem o Congresso. Luiz Eduardo Silva Daniel. São Paulo, SP.”
O que me impressionou nessa coleta de depoimentos foi o último, que fala da relação custo-benefício desses vencimentos extraordinários. Diz o leitor que em qualquer empresa séria grandes profissionais ganham o que merecem. Qual é a relação entre o que recebem e o que fazem nossos políticos e, quer saber?, até mesmo os Ministros do Judiciário. Não se tira a importância do cargo ou de sua posição constitucional, mas, para as sessões de julgamento que fazem e pelo número de processos que julgam (e esse número vai diminuir com a súmula vinculante), há um exagero nos vencimentos.
Lembre-se o leitor que junto com os vencimentos vêm os carros oficiais, as despesas de gabinete, os cargos de confiança, computador, passagens aéreas, plano médico distante do brasileiro comum e uma aposentadoria garantida.
A esperança era o Judiciário. Era.

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