Toque de recolher
Está resolvido o problema da violência nas cidades! Glória, Aleluia! Incompetente, ineficiente, falível, canhestro, batido e vencido em sua missão de retirar da sociedade os facínoras, o Estado resolveu trancar as vítimas em suas casas e apartamentos. Cortar a cabeça para não ter de usar chapéu. Perfeita solução. Estava escrevendo com raiva, mas comecei a pensar melhor. Se nós todos ficarmos em casa, trancados, por trás de nossas grades e barras, com cercas elétricas, com câmeras de vigilância, com porteiros eletrônicos, jogando bozó, dominó, carteado ou simplesmente vendo novelas e BBBs da Globo, facilitará o trabalho policial. Por que? Porque lá fora, nas ruas, só haverá bandidos e mocinhos. Basta aos mocinhos pedir identidade aos bandidos e recolhê-los aos presídios. Fácil, não? A mídia se ocupa, nesta manhã, de uma decisão de Fernandópolis, onde um juiz decretou o “toque de recolher”, termo horroroso que remete a crises institucionais e tempos de guerra. A verdade é que o Estado falhou. Jogou a toalha. Então, não podendo cumprir sua função de nos dar segurança, resolveu nos trancar, violar nosso direito de ir e vir. Continuamos pagando a folha salarial de policiais, deputados, conselheiros tutelares, juízes, servidores em geral e o único movimento articulado que vemos é a reivindicação de aumentos, vantagens e mais recursos orçamentários. Pagamos sem receber o serviço, sem termos segurança, sem termos tranqüilidade. Farmácias, ônibus, veículos de carga estão sendo assaltados diariamente. Essas ocorrências nem são mais notícia, tal é a freqüência com que acontecem. O que faz a polícia? Registra boletins de ocorrência. A autoridade vai à televisão e diz a mesma frase: estamos apurando as responsabilidades... Alguém perguntou: por que a polícia não decreta o toque de recolher para bandidos? Em nosso Estado, como aliás, no Rio, em São Paulo, em Minas, há pouco, descobriu-se que a própria polícia, com oficiais graduados, tomava conta de prostituição, da jogatina, do tráfico de drogas e de influência. Então, tremo só em pensar no que acontecerá quando todos nós estivermos em casa, após determinado horário, sendo assaltados por policiais disfarçados de bandidos e por ladrões uniformizados de policiais. Sem defesa. Sem esperança. Sem futuro à vista. Quando aquele menino pergunta se você quer que ele cuide de seu carro e você aceita para não ter o patrimônio danificado. Ou quando aquele motoqueiro toca a campainha e pergunta se pode cuidar de sua casa à noite, você aceita, pois como vamos saber se ele não vai nos assaltar logo depois? Quando aquele policial aposentado mas bem relacionado lhe pede uma “assinatura” de uma revista, ou lhe oferece dez entradas para o churrasco do clube dos oficiais, você tem coragem de negar? Há tempos li sobre soluções absurdas. Cortar a mão para não precisar usar luva. Ficar surdo para não ter de ouvir barulho. Trancar os jovens em casa para evitar a violência é solução de um Estado falido. Sem credibilidade. A cada dia com menos autoridade. No velho Oeste americano, ante à proliferação dos roubos de gado, surgiram os Vigilantes, que enforcavam ladrões e inocentes a torto e a direito. No Rio, surgiu o Esquadrão da Morte, que tinha boas intenções mas virou puro banditismo. As favelas cariocas têm as milícias, que distribuem desde cocaína a gás de cozinha, fingindo cuidar da população. São entidades que surgem quando o Estado desaparece. Está chegando a hora de pensar em soluções inteligentes, pois o Estado, enquanto Segurança, Saúde e Educação está chegando ao fim, desaparecendo a passos largos. Você seria capaz de apostar no que virá depois disso?
Marcadores: direito de ir e vir, menores, toque de recolher, violência

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