28.12.06

Espertos S.A.

O cara-de-pau relator do projeto de aumento dos vencimentos de deputados justificou sua iniciativa dizendo que “os altos vencimentos estimula os sérios” no parlamento. Como se altos vencimentos tornassem honestas pessoas que não conhecem essa palavra. Então, como ficam os que ganham muito pouco, a miséria do salário mínimo, por exemplo? Essas esmolas estimulam o que, deputado?

“Demasia, abuso, exagero”, diz Chico Vigilante, fingindo indignação na TV mas comemorando, intimamente, o salário aumentado em 91%, índice vergonhoso perto dos 25 reais aumentados no mínimo. Cara de pau, porque aparece falando uma coisa e fazendo outra: “reclamando” do aumento, chamando de exagero e, confiando na idiotia nacional, confirmado pelos resultados eleitorais do último pleito, mantendo seus ganhos ilícitos. Certíssimo da impunidade.

O outro, Rodrigo Maia, pefelista carimbado no noticiário global, saiu-se com esta: “não é salário, é subsídio”. E justificou a patranha dizendo que o político precisa de uma “boa condição” para exercer seu mandato. Dito e feito, mandaram 91% de aumento na “boa condição” para 2007.

O outro esperto, Miro Teixeira, notório cara de peroba carioca, disse que “se comparar com o salário mínimo é (o aumento) muitíssimo”. Depois, olhou para a câmera e ainda mandou: “não há muito, nem pouco”. Para ele, “se você comparar grandezas diferentes, achará resultados diferentes”... É, realmente, muita safadeza. As grandezas absolutas – o salário dos deputados e o salário mínimo – estão nos jornais. E Miro Teixeira já descobriu isso.

O cara de pau chefe, Aldo Rebelo, e seu comparsa, Renan Calheiros, sempre eles, disseram que haverá “cortes” no custeio, na construção do Anexo V da Câmara, nas reformas de apartamentos dos deputados... Óleo de peroba neles. O Anexo V da Câmara nem deveria ser construído. Quanto aos apartamentos funcionais, essa vergonha nacional, representam tudo o que há de iníquo no país, pois são mordomias para quem não precisa. E quem não quer ocupá-los, vai receber de 3 a 4 mil como “ajuda de custo”.

O assalariado olha isso na TV e faz suas contas: sua casa no bairro remoto de qualquer cidade precisa de uma porta, uma janela, alguns tijolos para consertar um muro, um galão de tinta. Mas o salário não suporta a despesa. Se pudesse, pagaria um aluguel de 200, 300 reais, mas onde arranjar essa fortuna? Enquanto isso, o deputado que, repita-se, não precisa dessa quantia, tem o apartamento ou, a escolher, 3 mil para alugar um palacete ou um apartamento bem localizado.

O chamado tecido nacional está podre. A repercussão do aumento dos deputados já se faz sentir nos parlamentos estaduais, onde os aumentos estão sendo votados. São Paulo terá deputados ganhando cerca de 20 mil e os vereadores, que ganham percentuais sobre esses vencimentos já se assanham rumo à bolsa da viúva.

Um papai noel gordíssimo para quem tem mandato. Quem deu o mandato, votando maciçamente nessa corja, vai ter de amargar mais um pouco para conseguir uma cesta básica ou um presente de promoção no camelódromo.

Por falar nisso, uma orgia a mais, uma funcionária de Brasília (vou omitir o nome apenas porque não tenho sua autorização para divulgá-lo) está mandando seu filho em um “pacote” turístico à Disney e depois Miami, do qual participarão filhos de funcionários de um órgão público famoso. O órgão paga, pasme o leitor, 5.400 por participante, que contribuirá com apenas um complemento de, pasme novamente, 700 reais. Quer pasmar de novo? Esses 700 serão pagos em 12 parcelas!

Voltando à vaca fria, ou, melhor, à República dos Espertos, descubro que vamos pagar mais impostos no próximo ano, ora porque o país precisa pagar seus deputados e executivos, ora porque estamos criando um “fundo de combate à fome” (nossa versão estadual para a generosidade burra).

Não há nenhuma razão para você se alegrar, comemorar, mandar cartões de feliz natal e próspero ano novo (revisão, por favor, conserve assim mesmo, de acordo com a importância dos conceitos). Nenhuma virtude há em viver no Brasil, na ponta mais fraca da corda, na bacia dos otários.

Comemore o Natal em silêncio. Pense apenas em que, além da CPMF que ficou permanente, agora teremos a multa de 50% do FGTS que será prorrogada, apesar de já termos pago a conta judicial que não era nossa.

Comemore em silêncio. Medite. Reflita. E, um último aviso: mantenha as armas de fogo e os frascos de veneno longe desse momento de reflexão.