31.7.06

Padrão Globo de moralidade

A TV é uma concessão. Como tal, tem compromissos com a educação, com a formação do povo brasileiro, mas, de modo geral, trabalha para o emburrecimento de donas-de-casas, operárias, domésticas, crianças que estão na sala no horário nobre. É a hora da novela ou dos programas e das séries pseudo-moralistas.

Resolvi tomar um para exemplo e fui até o fim, o que é difícil, com Pedro e Bino em uma de suas viagens pelo “Carga Pesada”. O roteiro era ridículo e previsível, como sempre. A Globo queria mostrar um herói capaz de “comprar” uma garotinha de 13 anos, vendida pelo próprio pai, alimentá-la, vesti-la, conversar com ela, orientá-la e, depois de um giro, devolvê-la ao pai, intacta em sua fresca inocência.

Tudo de acordo com a igreja, com a moralidade vigente, com a TFP, com os evangélicos, funcionários da Globo, Ministério Público e Juizado da Infância e Juventude. Ninguém fica infeliz com um herói desses.

O problema é que para a Globo não interessa fazer o que a lei manda, porque não dá Ibope, não traz dinheiro aos cofres da empresa. A menor vendida a Pedro fez um longo passeio de caminhão. Embora Pedro e Bino se mostrem cheios de trique-triques e cuidados, temerosos, cautelosos, sabendo, portanto, da besteira que estavam fazendo, o roteiro precisava seguir em frente para atrair anunciantes.

Muitos adolescentes ficaram sabendo que, ainda que seja por um dia ou dois, é possível fazer uma viagem sem compromisso pelo Brasil, comendo, bebendo, vestindo e “recebendo conselhos” de dois motoristas bonzinhos sobre relacionamento familiar. Espera-se uma grande adesão de mais menores às boléias dos Pedros e Binos da vida real.

Afirmo que esse programa não é educativo e incentiva o crime que pretensamente está denunciando, numa violação ao Estatuto da Infância, artigo 76, parágrafo único.

A Globo deixou de dizer que o pai da menor, com a conivência de Pedro e de Bino, cometeu um crime contra o Estatuto da Infância e qualquer suspeita nesse sentido deve ir ao Ministério Público, à delegacia mais próxima, ao Conselho Tutelar, ao Juiz, ao Prefeito.

O pai deve ser denunciado, a mãe deve ser avisada e, se estiver participando do golpe, será denunciada também. Ah, Pedro estava de boa intenção, denunciar o pai que está passando por uma fase difícil só vai piorar a situação. Coisas do roteiro. Mas a lei obriga a denúncia (artigos 13, 18, 33 do Estatuto), sob pena de conivência.

O respeitável público poderia ficar sabendo, pela Globo, que criança não pode viajar com estranhos sem consentimento dos pais (artigo 101, do Estatuto), consentimento expresso, legal, não esse consentimento clandestino de um pai que vende a filha. Isso é crime, pura e simplesmente.

Se Pedro fosse às autoridades, os pais da criança seriam chamados a responder pelo delito e até receberiam “encaminhamento a programa oficial de proteção à família” (art. 129), com orientação e ajuda sobre como criar sua filha (art. 101).

Constatados maus tratos (art. 130), os pais seriam afastados do convívio com a menor e poderiam perder a sua guarda. A menor receberia um lar provisório, que poderia ser de adoção (até mesmo de Pedro, se atendidos os pressupostos legais).

A Globo perdeu uma excelente oportunidade para mostrar como o Estatuto não funciona no Brasil, como os Conselhos Tutelares raramente são eficientes, que há filas de pais denunciados, esperando o chamado perante o Conselho, enquanto os filhos continuam se prostituindo para sustentar a família.

Desvios ou insuficiência de verbas, FEBEM, tráfico de menores, bacanais em fazendas com menores servindo de diversão, books dos hotéis chiques, participação de algumas agências de turismo, taxistas, uma espantosa rede do crime.

Tudo isso a Globo poderia ter exibido em seu programa, mas preferiu mostrar o motorista bonzinho, que participou de um crime, recusou os favores sexuais da criança, alimentou-a, viajou com ela sem autorização de um Juiz, devolveu-a à miséria do dia-a-dia depois de mostrar-lhe as alegrias de uma viagem sem compromisso (não tirou pedaço de ninguém...).

Ninguém foi denunciado, nenhum pai foi chamado à responsabilidade, a menor não recebeu nenhum dos seus direitos previstos na lei, e, para piorar, o programa termina mostrando como a vida real escreve também os seus roteiros: a menina embarca novamente, dessa vez em um carrão de luxo, para mais uma aventura.

Nesse up grade de um caminhão para o Mercedes está a verdadeira mensagem do programa: no padrão Globo de moralidade, o crime compensa.