Recém-convertido
- Só vejo filme nacional quando estou em coma.
Minha frase, um tanto exagerada, foi, certamente, ouvida mil vezes pelo meu amigo Pedro Antonelli, da locadora Conecta4, do Jardim Cachoeira, onde costumo garimpar meus melhores filmes.
Cada vez que ele vinha com um filme nacional, eu lascava minha frase e a indicação mixava na hora. Era como um eficiente bordão de defesa contra o cinema nacional.
Foi assim que não vi “Cidade de Deus”, “Central do Brasil”, “Quatrilho”, embora, escondido do Pedro, tenha visto (e gostado) do “Homem de copiava”.
Pedro conhece meus parâmetros de avaliação de filmes. Grau 4 quando o filme é tão bom que o cliente paga a locação em dobro. Grau 3 quando paga só a locação. Grau 2 quando o cliente não paga ou pede devolução da locação. E, finalmente, grau 1 quando além de não pagar, o cliente pede uma indenização por ter sido obrigado a assistir aquele lixo.
“Quatrilho”, por exemplo, concorreu com “Caráter”, um filme holandês. Se você vir o filme holandês fica sem saber por que o Brasil tinha tanta esperança de ganhar o Oscar. Não tinha chance o filme nacional de tão bom que era o outro. Dei minha impressão ao Pedro e ele quase me expulsou da locadora. Nunca abri mão de afirmar que “Quatrilho” era uma porcaria perto de “Caráter”.
Todas essas esquisitices são suportadas pelos meus amigos da Conecta4 porque acham que sou uma espécie de guru dos consumidores chatos.
Compreendi como eu era chato quando a locadora deixou de me cobrar um filme de que, definitivamente, não gostei. Poderiam ter simplesmente me dito que o azar era meu, locou, pagou. Mas foi esse tratamento que me cativou. Sem explorar a boa vontade deles, costumo receber as indicações com cautela mas sabendo que não estou sendo empulhado ou sendo vítima da empurroterapia.
De qualquer forma, filme nacional, estava fora de cogitação. Pelo menos até agora.
Outro dia, joguei a toalha e confessei que um filme nacional me impressionou bem, digamos, quase nível 4. Foi “Querido estranho”, com Daniel Filho e Sueli Franco. Surpreendentemente, o filme tem um roteiro impecável, baseado em texto de Maria Adelaide Amaral, tem interpretações magistrais de Daniel Filho e de uma atriz estreante que deu um verdadeiro banho na velha-guarda.
Diante de minha constrangida confissão, capaz de aposentar minha frase preferida, Pedro quis me estimular a ver outros filmes da produção brasileira e indicou-me os curtas da Petrobrás que estão no site da empresa e são anunciados nos cinemas da rede Cinemark.
Foi aí que Pedro e Ana Cláudia (sua colega de trabalho na locadora) ganharam meu respeito como consumidores nota dez por um episódio exemplar. Atraídos pelo anúncio da Petrobrás, foram ao Cinemark ver o curta “Feminices”.
No horário marcado, só os dois caras-de-pau e nenhuma outra alma esperando pelo curta e nada de filme. Saíram para falar com a gerência e ficaram sabendo que não haveria sessão só com duas pessoas. O “regulamento da casa” pedia pelo menos cinco espectadores. Pedro e Ana Cláudia bateram o pé, alegaram sua condição de consumidores pagantes, recusaram-se terminantemente a receber o ingresso de volta e ver o curta em outro dia.
Bater o pé, literalmente, iria acabar resolvendo o problema mas um outro argumento da dupla foi vital para convencer a gerência do cinema: a Petrobrás já pagara a rede de exibidores para exibir o filme. Então, com um, com dez ou com cem espectadores, o cinema estava pago.
Foi assim que as duas almas perdidas naquela sala vazia de público mas plena de razão viram seu curta-metragem da Petrobrás, o mesmo que agora me era recomendado com se eu fosse o mais novo convertido às virtudes do cinema nacional.
Quando confessei minha admiração pelo filme “Querido estranho”, Pedro usou uma frase lapidar: é com filmes assim que o cinema nacional vai acabar se recuperando.
Pois eu digo que é com gente como Pedro e Ana Cláudia que a cidadania vai se consolidando para formar um mundo melhor.
O problema é o preço que vou ter de pagar ao Pedro: vou ter de prestar atenção aos filmes que ele me indicar. É um bom preço. Eu pago.

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