30.1.06

Aqui é possível (Direto da Coréia)

Seul, Coréia do Sul – Chegamos ao novo aeroporto de Seul, moderníssimo, sombrio (muito cinza e azul escuro), sem as cores berrantes que enfeiam outras cidades da Ásia. Nossas malas tinham ficado em Paris, por conta da incompetente Air France. Nada a fazer até o dia seguinte. Pelo menos, as malas chegaram intactas.

Os veículos, por aqui, claro, estão todos plugados no GPS, acendem os faróis só quando detectam o nível correto de escuridão (ou necessidade, numa garagem, por exemplo), embora isso já seja comum em boa parte das grandes cidades.

O que me impressiona por aqui é a quantidade de fábricas nacionais de automóveis (Kia, Hiunday, Asia Motors, Daewoo, etc.), o que inibe a indústria japonesa (que quase quebrou a americana) e européia. Alguns Mercedes aqui e ali, mas nada que seja preocupante para os coreanos.

A menção é porque nosso “Brasilzão” não tem uma fábrica de automóveis brasileira! Você sabia disso? Sim, você vai dizer Gurgel, etc., mas isso não tem nenhuma relevância à minha pergunta.

O único senão é que aumentando o nível de renda, a divisão de renda do povo, todo mundo compra carro e aí o trânsito complica. Dia 28 foi o primeiro dia do calendário por aqui, ou seja, agora que começa para eles. Nesse dia, a cidade fica vazia, porque todo mundo vai visitar sua cidade natal. Amanhã verei como ficou o trânsito.

Visitei uma região de estufas – por aqui, as orquídeas, tulipas, flores de todo tipo imaginável são produzidas em estufas durante o ano inteiro. E há várias regiões da cidade em que as estufas se espalham. Nesses locais, pratica-se a milenar arte do bonsai (aquelas árvores em miniatura), onde elas chegam a dar frutos.

Uma história completamente superada por aqui é a discussão dos transgênicos. Vi muita coisa produzida na Coréia (pêras, maçãs e legumes, de variados tipos e gostos e com tamanho impressionante). A transgenia lhes traz beleza e sabor gratificantes.

Estão estudando células-tronco com a maior competência, não se descartando alguma descoberta nessa área para logo.

PS: Vou dormir, porque estou confuso com o fuso horário. Parece quatro da manhã para mim. Vocês, que estão no batente diário nessa hora, nada têm com o meu sono. Amanhã devo ir à zona desmilitarizada (mais militarizada do que qualquer outra no mundo), ver a fronteira entre as duas Coréias e, com sorte, conhecer a maior fábrica de helicópteros do mundo, também do Reverendo Moon.

25.1.06

Festa de adeus

Quando vejo esses convites de casamento, anunciando enlaces (opa!), festas, listas de presentes, chás de panela, arranjos florais, movimentação de fotógrafos, alfaiates atrás de padrinhos, madrinhas atrás de costureiras, sinto a necessidade de uma renovação nesse ultrapassado layout.

Deveríamos fazer uma festa de separação, uma festa de adeus, à qual seriam convidados os ex-padrinhos, aqueles casais que desaparecem quando as crises se abatem sobre o ex-parzinho apaixonado, quando falta dinheiro para o aluguel, a visita ao pediatra, a mensalidade escolar, a cesta básica do mês, a prestação do carro.

Quer testar o padrinho? Convide-o para ser avalista de um empréstimo para comprar os móveis ou para financiar o apartamento do casal.

Na festa do adeus, seriam leiloados, no meio do baile, ao som de um DJ moderninho, os móveis, as roupas antigas, os presentes antigos, livros, aqueles chatíssimos álbuns de viagens, quando o amor e a paixão ainda rondavam o utópico “lar doce lar”.

Os mais ousados poderiam exibir na festa, numa boa, na maior demonstração de boa vontade, os novos pretendentes ou, se quiserem, as vítimas de um novo relacionamento.

Tudo se faria na maior harmonia. Ok, vá lá, se quiserem podem convidar o padre ou o pastor que celebrou o primeiro casório, para abençoar o bota-fora. Claro que alguns líderes religiosos vão dispensar o convite, já que ainda acreditam no tal casamento até que a ceifadeira nos separe. Vade retro!

As sogras, bem, essas deveriam ser convidadas com cuidado, pois costumam estar à beira do homicídio com alguns genros e noras. No fim da festa, dois carros sairiam com aquelas latas no pára-choque, podendo-se substituí-las por um fundo musical com barulho de lataria. Vale qualquer detalhe criativo.

As vantagens de uma festa de adeus seriam muitas – além de uma completa renovação para essas lojas de noivas – e as principais eu ofereço desde já. Os separados ampliariam seu círculo de amizade com novos grupos de curiosos, amigos do amante, amigos do marido, amigos da mulher, amigos dos amigos, inimigos de um e de outro lado.

Um detalhe civilizado é decidir em grupo – ex-marido, a ex-mulher, novo marido, nova mulher – a lista de convidados, os presentes de despedida, o “testamento” de coisas que serão descartadas durante a festa.

Um modelo de convite pode ser: “Você está sendo convidado para nossa festa de separação, para assistir nossa partida para um novo destino, um novo tempo, com novas pessoas, novas caras e novos planos. Venha nos ajudar a decidir o que fazer com as velharias que juntamos no porão. Venha conhecer os novos corajosos que vão nos agüentar daqui em diante...

Enfim, será uma festa inesquecível, muito menos chata e cansativa do que as atuais festas de casamento.

Viva a esperteza

Começa 2006. Gostaria de trazer uma mensagem de otimismo, de confiança no futuro, recomendar aos meus filhos os mesmos valores de honestidade, trabalho, esforço pessoal, temperança que nos trouxeram até aqui, saudáveis, bem formados, cidadãos em que o país pode confiar.Mas, quer saber? Não tenho coragem nem moral para continuar recomendando coisa alguma. O mundo aí fora está me desmentindo há 60 anos. Os jornais trazem escancaradas as manobras de Nelson Jobim, presidente do Supremo Tribunal Federal, para aumentar os próprios vencimentos e com esse aumento, negociado na calada da noite, com Severinos, Sarneys, Lulas e Aldos Rebelos, impor um aumento em cascata para todos os demais servidores do Judiciário abaixo dele.

Lula resolve gastar nossas economias em “asfalto sonrisal”, aquele que se desfaz à primeira chuva. E, para justificar, sai-se com a desculpa de que se ele não fizer essa safadeza, outros, os contrários, farão uso dos buracos na campanha eleitoral. Vale dizer, se ele não fizer o asfalto sonrisal, os adversários vão usar os buracos como propaganda eleitoral. Assim, um político desonesto vai gastar nosso dinheiro para engordar empreiteiras desonestas.

O Congresso, uma esperança, quem sabe? Não. O Congresso demonstrou que também é desonesto, quando votou um “esforço concentrado”, embolsou a grana extra e, imediatamente, saiu de férias para gastá-la em água de coco, praias paradisíacas e lagostas. Tudo por nossa conta. Não, definitivamente, não há como confiar no Congresso.

A Polícia Federal, assim como o aparato de segurança, está contaminado, rendido aos facínoras. A Polícia Federal chegou a roubar a própria Polícia Federal e, em reportagem recente, montava esquema de proteção para cargas furtadas.Avizinha-se uma campanha eleitoral, movimentam-se os candidatos e partidos, usando os mesmos métodos, as mesmas trapaças. Vão gastar dinheiro público em outdoors, panfletos, santinhos, cabos-eleitorais, diretórios, produção de programas de TV. Parte do pagamento será em votos de subserviência, quando estiverem eleitos. Venderão seus votos, sua alma, sua consciência, sua amnésia em relação ao eleitor que os colocou lá.

Então, que esperança posso dar aos meus filhos? Que sinal de futuro posso lhes apresentar para recomendar que continuem puros? Eles já perceberam que montanhas de recursos são sugadas da sociedade e vão para Brasília, de onde desaparecem em transações milionárias e escusas, Brasil afora. Isso não vai mudar, nem em 2006, nem nunca.

Os bancos continuarão tomando emprestado de nossa poupança, a menos de 1% ao mês, e repassando às contas especiais, ao cheque garantido, a 15%, 18% ao mês. Sim, claro, isso é agiotagem, mas o próprio governo diz que no caso dos bancos, não, é apenas um negócio lícito.Esse negócio lícito – entre governo e banqueiros – rende ao sistema financeiro lucros bilionários, comemorados nas páginas de jornais de economia, como se eles trabalhassem para ganhá-los. Sobre esses lucros, o governo recebe de duas formas: em impostos escorchantes, de que os banqueiros não reclamam porque estão ganhando horrores, e em corrupção, mantendo um Ministro que protege o banqueiro e viabilizando a corrupção que mina o tronco e a raiz de nossa cidadania.

Assim, recomeça 2006 e, constrangido, chamo meus filhos ao centro da sala e os libero do que lhes ensinei até hoje, convencido de que o crime compensa e muito. Não lhes posso impor 60 anos de honestidade e respeito, à custa do enriquecimento dos mais sabidos em volta de mim.Recomendo-lhes esperteza, cautela, olho vivo. Nada de devolver bolsas com dólares encontradas em banheiros de aeroporto. Nada de generosidade ou bobo-alegria. Se não podemos vencer o inimigo, vamos costurar uma boa aliança com ele. Sei que para os ímpios estão preparadas as chamas do inferno, mas se estou no Brasil, e se valem as experiências desses anos todos, o inferno vai demorar uma eternidade para chegar aqui.

Enquanto isso...

17.1.06