6.2.06

Seul, Coréia do Sul, 1o de Fevereiro de 2006

ISSO É SÓ NOSSO.

Do aeroporto para a cidade e, ontem, percorrendo algumas estradas do interior, perguntei ao nosso amigo e guia como era encarado o problema da corrupção. Ele me disse que também aqui há corruptos, especialmente, na política. A diferença é que a punição e tão severa que o risco e o custo não compensam.

Falei do nosso “asfalto sonrisal” e comparei com aquele tapete que são as rodovias coreanas – sem exceção – e ele se mostrou perplexo. Suas perguntas são sintomáticas: “Mas qual o sentido de fazer um asfalto ruim? A estrada não será usada por milhares de pessoas? Não entendo qual é a vantagem de fazer serviço público ruim, se quem paga é a própria sociedade...”

E por ai seguiu. Disse que os corruptos locais normalmente lesam bancos, instituições financeiras, grupos econômicos, mercado acionário e por aí afora. O serviço público, aquele feito com os tributos, e considerado sagrado. Disse que a Coréia do Sul já se modernizou, mas aqui ao lado, em alguns países como Cingapura e a própria Coréia do Norte, sem falar na China, a pena de morte é uma realidade permanente.

Pensei na inutilidade de se ficar comparando culturas e países diferentes, mas insisti durante todo o dia. Por aqui, uma mochila largada no corredor de um hotel só tem um destino: o lobby, o dono. Perguntar se alguém não subtrai, não rouba, não furta traz sempre de volta a resposta: mas... se não pertence a você, para que pegar?

A vózinha do brasileiro lá dentro, também teimosa, martela: “mas é por isso que mesmo que se furta, porque não é nosso!” Que povo difícil de entender os nossos costumes tropicais...

Para não dizer que estou falando mal de nós mesmos porque fiquei inspirado por aqui, esta me foi contada pelo Trombini, meu quase suíço amigo que dirige hoje a Santa Casa. Andando de trem pela Suíça, ganhou de uma passageira que não conhecia um passe-idoso, que lhe garantia um desconto no trem. Assim, sem mais nem menos, ela disse que acumulava aqueles benefícios pois viajava pouco. Disse-lhe que bastava ir a um guichê e ganhar o desconto.

Desconfiado, desceu na próxima estação e foi verificar o que havia de verdade naquela oferta de uma santa desconhecida. Era verdade. O cashier lhe isentou da passagem dali em diante. Quando ia se afastando, ainda meio ressabiado, o guarda o chamou. “Eu sabia que isso não iria durar, que era muito bom para ser verdade, quando a oferta é grande, o santo desconfia...” , voltou pensando. Não. Decididamente, aquele era o seu dia. O guarda lhe perguntou se não queria receber a diferença do trecho anterior, no qual ele também tinha direito.

Outra historinha. Uma ilustre dona de escola foi a Michigan, visitou a biblioteca pública de uma Universidade e perguntou à atendente se havia muito furto de livros e o que eles faziam quanto a isso.

“Furto de livro? Alguém furta livros no Brasil? Mas... como isso pode ser?” Envergonhada, até hoje nossa amiga tenta responder a essas perguntas. Sim, aqui até jornal velho é roubado. O que fazer?

Histórias como essa não nos fazem amar menos o nosso país. Mas nos dão melancólica sensação de que fomos descobertos pelas pessoas erradas e errados continuamos até hoje.