28.12.06

Ilmo. Sr. João Gomes

Não gosto de mensagens de natal, ano novo, árvores de natal, aniversários e, de modo geral, os cartões que representam essas datas. Nenhuma amargura, apenas um grande cinismo e a certeza de que não estou sozinho nesse repulsa.

Costumo brincar quando me perguntam por que não monto uma árvore de natal em casa ou por que recebo pouquíssimos cartões no fim do ano. Digo que se os cartões vierem com 100 dólares eu não-só monto a árvore, toda iluminada, como ainda penduro cada cartão naquelas ridículas bolinhas ou naqueles laçarotes empoeirados e vermelhos de poeira.

Que meu leitor desculpe o exagero, pois há quem goste desses símbolos.

Explico, como faço todo ano, meus problemas com esses assuntos, revisitando um artigo escrito há uns 10 anos (“Papai Noel”) e que continua atual, ao menos na minha opinião. Confira comigo.

Este ano já estou preparando minha meia para receber um presente do velhinho. Como nunca acreditei nesse personagem de barba, vestido de vermelho, cruzando os céus das imaginações mais férteis em seu trenó encantado, estou tentando me redimir.

No ano que vem, muito a contragosto, de má vontade, sob solene protesto, serei um sexagenário e não quero dar mau exemplo, desacreditando em personagens de minha infância.

Fui examinar os requisitos para merecer a visita de Noel e já comecei em desvantagem. Afinal, como toda criança de cidade, não tenho chaminé e vou ter de resolver isso de outra forma.

Cheguei à lista de boas ações que justificariam meu presente e mandei a Noel, rapidamente, para não haver atraso no Natal.

Não comprei disco de Bruno e Marrone, não assisti Eliana e os Golfinhos, não vi clip de Sandy e Jr.

Música sertaneja, ouvi algumas, mas fui perdoado quando, de relance, descobri que há uma coisa chamada Egüinha Pocotó e alguns lixos da Kelly Ki (será assim mesmo?) bem piores do que música de rodeio, Leonardo, Zezé de Camargo e Luciano.

Não fui ao Ponto Mix nem à Exposição, colaborei o ano todo com o estacionamento do Shopping, não li Paulo Coelho, o que aliás, nunca fiz até hoje e, sobretudo, não vi novela de nenhum tipo. BBB nem se fala, nem sei o que é.

Beijei e abracei meus filhos sempre que pude (muitas, vezes, graças a Deus) e só fiquei sozinho este ano porque a mulher cansou de mim, o que justifica minha crença em Papai Noel, como forma de compensação.

Não comi verdura de nenhum tipo, não tomei coca-cola e não fiz nenhum tipo de ginástica e não fui a nenhum tipo de igreja. Enterro fui a um só e funerais evitei ao máximo, já que desgosto tanto disso que pretendo faltar até ao meu.

Não atendi a nenhuma ligação de telemarketing, tentei processar quem me mandou spam, recusei cartões de crédito e aberturas de “contas especiais”. Não falei com vizinhos, deixei de retornar um monte de ligações de entidades fictícias e de malandros querendo clonar meu telefone.

Sempre que pude, deixei o celular desligado, sob reclamações de amigos, clientes e até mesmo inimigos. Escrevi muitos artigos que poucos (todos amigos) leram e quase ninguém ligou. Publiquei o meu segundo livro, “Cidadão de Festim”, que infelizmente ficou desatualizado quando aposentaram Roberto Jefferson.

Sobre isso, aliás, vivi dois episódios interessantes. O primeiro, foi a apreensão de minha filha e editora Bruna Campos (que este ano foi mais cantora do que editora) com uma das frases do livro acima citado: “Políticos de meu país, renunciem! Antes que tudo vire escombro, saiam do Congresso para que possamos escrever, também, uma nova história” (“A CPI e a mulher adúltera”). Ela achava que alguns políticos ficariam magoados. Bobagem, minha filha. 91% de aumento apagam qualquer mágoa.

A outra experiência foi receber a reclamação de uma professora amiga: “João, achei seu livro verdadeiro, mas muito amargo”. A essa observação, só pude responder que, quando saiu o livro, eu ainda não tinha passado pelos últimos acontecimentos políticos nacionais. Os sanguessugas não tinham sido absolvidos, Lula não tinha sido reeleito... Bem, vá o leitor ao noticiário nacional e me ajude a completar a resposta.

Com tanta notícia ruim nesse final de ano, se não merecermos um presentinho, pelo menos teremos ficado mais sábios e experientes.

P.S. Quando terminava este artigo, recebi em meu escritório um cartão de natal de uma deputada que, definitivamente, mostra como estou certo sobre cartões e mimos natalinos. A mensagem é impressa, ou seja, vale para mim e para milhares de fãs da deputada. A certeza de que ela não me conhece e manda esses cartões apenas por protocolo ou para dar serviço às suas secretárias está no endereçamento do envelope. Em letras garrafais, eu me transformo no “Ilmo. Sr. João Gomes”...

Foi-se mais uma esperança

“Daqui a pouco, Zé Dirceu é presidente da República”.

Abro com uma frase de minha mãe, velha guerreira chegando aos oitenta anos sem nenhuma esperança no Brasil e questionando, a cada dia que passa, sua estratégia de criar filhos sob um rígido padrão de moralidade evangélica. Segundo ela, criar filhos honestos é aumentar a galeria dos bobos da corte, dos explorados. Touché, dona Zilda. Só espero que sua frase não seja profética, embora com a eleição de Lula eu tenha de colocar as barbas de molho. Colho da Revista Veja alguns depoimentos para encerrar o ano, mostrando como o Brasil termina escorregando na ladeira.

“A imoral e revoltante conivência do Judiciário com o Legislativo transformou o teto salarial numa suculenta teta salarial. Essa extorsão do dinheiro público começou com o subterfúgio de regulamentar o inciso XII do art. 37 da Constituição, que já estava perfeitamente definido, prontinho para ser aplicado. O texto é claro e bem explícito, ao determinar que "os vencimentos dos cargos do Poder Legislativo e do Poder Judiciário não poderão ser superiores aos pagos pelo Poder Executivo". O "não" desse inciso é incisivo, não deixando margem a nenhuma dúvida. Ora, se os vencimentos nos poderes Legislativo e Judiciário não podem ser superiores aos do Executivo, é óbvio que o teto está assim estabelecido. A lógica infalível, expressa no bom senso, mostra que os vencimentos do presidente da República, a maior autoridade do Executivo, são a referência para o teto salarial, rigorosamente estabelecido na Constituição, que foi escamoteado, desrespeitado, sob a impávida complacência do Supremo Tribunal Federal (STF), porque também estava sendo beneficiado pelo indevido privilégio ("A volta da turma dos fura-teto", 6 de dezembro). Jurandy Caripuna Maués. Juiz de Fora, MG.”

“Com relação à reportagem, é impressionante a teia de gambiarras legalistas urdida por juristas de plantão para justificar o aumento do teto salarial dos magistrados e, de tabela, para sustentar os penduricalhos que engordam seus proventos. Mais impressionante ainda é a falta de senso crítico e de bom senso no trato da coisa pública, mormente em se tratando de julgar em causa própria. Diante de semelhante situação, a esperança de moralização do Judiciário, despertada pela ascensão da juíza Ellen Gracie à presidência do STF, vai para o espaço. Elizio Nilo Caliman. Brasília, DF.”

“Faltam-me adjetivos para expressar o que senti ao ler a matéria. Saibam esses espoliadores do Erário que cometem crime contra a nação. Uma nação na qual falta quase tudo para muitos. Onde milhares morrem na porta de hospitais, ou nas estradas malconservadas, ou por falta de segurança e de saneamento básico. Essas massas são vítimas de um país empobrecido, administrado por muitos funcionários públicos e políticos ricos que, em vez de voluntariamente renunciarem às vantagens incoerentes que percebem, ainda buscam na Justiça manter, e quem sabe incrementar, suas descabidas mordomias. Hans Günter Hardt. Joinville, SC.

“Todo cargo ou posição de liderança é almejado sobretudo devido aos privilégios: o dinheiro, as mordomias, o poder. No Brasil, o país da casa-grande e da senzala, não deveria ser diferente. Aqui, liderança é isso, não é conduzir pessoas, não é assumir responsabilidades perante os liderados. Essa é a cultura que impera desde a família, passando pelas empresas até a Presidência. Roberto Yamashita. Por e-mail.”

“O que me deixa impressionado no caso dos fura-teto não são os valores pagos, mas sim o motivo de seus pagamentos. Não existe relação alguma entre a performance e o potencial dos funcionários públicos com os salários pagos. Em qualquer empresa séria grandes profissionais ganham salários adequados, dignos e condizentes com suas realizações. Temos de tomar cuidado: no país que adora uma minoria, logo teremos o MFT (Movimento dos Fura-Teto), isso se não invadirem o Congresso. Luiz Eduardo Silva Daniel. São Paulo, SP.”

O que me impressionou nessa coleta de depoimentos foi o último, que fala da relação custo-benefício desses vencimentos extraordinários. Diz o leitor que em qualquer empresa séria grandes profissionais ganham o que merecem. Qual é a relação entre o que recebem e o que fazem nossos políticos e, quer saber?, até mesmo os Ministros do Judiciário. Não se tira a importância do cargo ou de sua posição constitucional, mas, para as sessões de julgamento que fazem e pelo número de processos que julgam (e esse número vai diminuir com a súmula vinculante), há um exagero nos vencimentos.

Lembre-se o leitor que junto com os vencimentos vêm os carros oficiais, as despesas de gabinete, os cargos de confiança, computador, passagens aéreas, plano médico distante do brasileiro comum e uma aposentadoria garantida.

A esperança era o Judiciário. Era.

Espertos S.A.

O cara-de-pau relator do projeto de aumento dos vencimentos de deputados justificou sua iniciativa dizendo que “os altos vencimentos estimula os sérios” no parlamento. Como se altos vencimentos tornassem honestas pessoas que não conhecem essa palavra. Então, como ficam os que ganham muito pouco, a miséria do salário mínimo, por exemplo? Essas esmolas estimulam o que, deputado?

“Demasia, abuso, exagero”, diz Chico Vigilante, fingindo indignação na TV mas comemorando, intimamente, o salário aumentado em 91%, índice vergonhoso perto dos 25 reais aumentados no mínimo. Cara de pau, porque aparece falando uma coisa e fazendo outra: “reclamando” do aumento, chamando de exagero e, confiando na idiotia nacional, confirmado pelos resultados eleitorais do último pleito, mantendo seus ganhos ilícitos. Certíssimo da impunidade.

O outro, Rodrigo Maia, pefelista carimbado no noticiário global, saiu-se com esta: “não é salário, é subsídio”. E justificou a patranha dizendo que o político precisa de uma “boa condição” para exercer seu mandato. Dito e feito, mandaram 91% de aumento na “boa condição” para 2007.

O outro esperto, Miro Teixeira, notório cara de peroba carioca, disse que “se comparar com o salário mínimo é (o aumento) muitíssimo”. Depois, olhou para a câmera e ainda mandou: “não há muito, nem pouco”. Para ele, “se você comparar grandezas diferentes, achará resultados diferentes”... É, realmente, muita safadeza. As grandezas absolutas – o salário dos deputados e o salário mínimo – estão nos jornais. E Miro Teixeira já descobriu isso.

O cara de pau chefe, Aldo Rebelo, e seu comparsa, Renan Calheiros, sempre eles, disseram que haverá “cortes” no custeio, na construção do Anexo V da Câmara, nas reformas de apartamentos dos deputados... Óleo de peroba neles. O Anexo V da Câmara nem deveria ser construído. Quanto aos apartamentos funcionais, essa vergonha nacional, representam tudo o que há de iníquo no país, pois são mordomias para quem não precisa. E quem não quer ocupá-los, vai receber de 3 a 4 mil como “ajuda de custo”.

O assalariado olha isso na TV e faz suas contas: sua casa no bairro remoto de qualquer cidade precisa de uma porta, uma janela, alguns tijolos para consertar um muro, um galão de tinta. Mas o salário não suporta a despesa. Se pudesse, pagaria um aluguel de 200, 300 reais, mas onde arranjar essa fortuna? Enquanto isso, o deputado que, repita-se, não precisa dessa quantia, tem o apartamento ou, a escolher, 3 mil para alugar um palacete ou um apartamento bem localizado.

O chamado tecido nacional está podre. A repercussão do aumento dos deputados já se faz sentir nos parlamentos estaduais, onde os aumentos estão sendo votados. São Paulo terá deputados ganhando cerca de 20 mil e os vereadores, que ganham percentuais sobre esses vencimentos já se assanham rumo à bolsa da viúva.

Um papai noel gordíssimo para quem tem mandato. Quem deu o mandato, votando maciçamente nessa corja, vai ter de amargar mais um pouco para conseguir uma cesta básica ou um presente de promoção no camelódromo.

Por falar nisso, uma orgia a mais, uma funcionária de Brasília (vou omitir o nome apenas porque não tenho sua autorização para divulgá-lo) está mandando seu filho em um “pacote” turístico à Disney e depois Miami, do qual participarão filhos de funcionários de um órgão público famoso. O órgão paga, pasme o leitor, 5.400 por participante, que contribuirá com apenas um complemento de, pasme novamente, 700 reais. Quer pasmar de novo? Esses 700 serão pagos em 12 parcelas!

Voltando à vaca fria, ou, melhor, à República dos Espertos, descubro que vamos pagar mais impostos no próximo ano, ora porque o país precisa pagar seus deputados e executivos, ora porque estamos criando um “fundo de combate à fome” (nossa versão estadual para a generosidade burra).

Não há nenhuma razão para você se alegrar, comemorar, mandar cartões de feliz natal e próspero ano novo (revisão, por favor, conserve assim mesmo, de acordo com a importância dos conceitos). Nenhuma virtude há em viver no Brasil, na ponta mais fraca da corda, na bacia dos otários.

Comemore o Natal em silêncio. Pense apenas em que, além da CPMF que ficou permanente, agora teremos a multa de 50% do FGTS que será prorrogada, apesar de já termos pago a conta judicial que não era nossa.

Comemore em silêncio. Medite. Reflita. E, um último aviso: mantenha as armas de fogo e os frascos de veneno longe desse momento de reflexão.

8.12.06

Recém-convertido

- Só vejo filme nacional quando estou em coma.

Minha frase, um tanto exagerada, foi, certamente, ouvida mil vezes pelo meu amigo Pedro Antonelli, da locadora Conecta4, do Jardim Cachoeira, onde costumo garimpar meus melhores filmes.

Cada vez que ele vinha com um filme nacional, eu lascava minha frase e a indicação mixava na hora. Era como um eficiente bordão de defesa contra o cinema nacional.

Foi assim que não vi “Cidade de Deus”, “Central do Brasil”, “Quatrilho”, embora, escondido do Pedro, tenha visto (e gostado) do “Homem de copiava”.

Pedro conhece meus parâmetros de avaliação de filmes. Grau 4 quando o filme é tão bom que o cliente paga a locação em dobro. Grau 3 quando paga só a locação. Grau 2 quando o cliente não paga ou pede devolução da locação. E, finalmente, grau 1 quando além de não pagar, o cliente pede uma indenização por ter sido obrigado a assistir aquele lixo.

“Quatrilho”, por exemplo, concorreu com “Caráter”, um filme holandês. Se você vir o filme holandês fica sem saber por que o Brasil tinha tanta esperança de ganhar o Oscar. Não tinha chance o filme nacional de tão bom que era o outro. Dei minha impressão ao Pedro e ele quase me expulsou da locadora. Nunca abri mão de afirmar que “Quatrilho” era uma porcaria perto de “Caráter”.

Todas essas esquisitices são suportadas pelos meus amigos da Conecta4 porque acham que sou uma espécie de guru dos consumidores chatos.

Compreendi como eu era chato quando a locadora deixou de me cobrar um filme de que, definitivamente, não gostei. Poderiam ter simplesmente me dito que o azar era meu, locou, pagou. Mas foi esse tratamento que me cativou. Sem explorar a boa vontade deles, costumo receber as indicações com cautela mas sabendo que não estou sendo empulhado ou sendo vítima da empurroterapia.

De qualquer forma, filme nacional, estava fora de cogitação. Pelo menos até agora.

Outro dia, joguei a toalha e confessei que um filme nacional me impressionou bem, digamos, quase nível 4. Foi “Querido estranho”, com Daniel Filho e Sueli Franco. Surpreendentemente, o filme tem um roteiro impecável, baseado em texto de Maria Adelaide Amaral, tem interpretações magistrais de Daniel Filho e de uma atriz estreante que deu um verdadeiro banho na velha-guarda.

Diante de minha constrangida confissão, capaz de aposentar minha frase preferida, Pedro quis me estimular a ver outros filmes da produção brasileira e indicou-me os curtas da Petrobrás que estão no site da empresa e são anunciados nos cinemas da rede Cinemark.

Foi aí que Pedro e Ana Cláudia (sua colega de trabalho na locadora) ganharam meu respeito como consumidores nota dez por um episódio exemplar. Atraídos pelo anúncio da Petrobrás, foram ao Cinemark ver o curta “Feminices”.

No horário marcado, só os dois caras-de-pau e nenhuma outra alma esperando pelo curta e nada de filme. Saíram para falar com a gerência e ficaram sabendo que não haveria sessão só com duas pessoas. O “regulamento da casa” pedia pelo menos cinco espectadores. Pedro e Ana Cláudia bateram o pé, alegaram sua condição de consumidores pagantes, recusaram-se terminantemente a receber o ingresso de volta e ver o curta em outro dia.

Bater o pé, literalmente, iria acabar resolvendo o problema mas um outro argumento da dupla foi vital para convencer a gerência do cinema: a Petrobrás já pagara a rede de exibidores para exibir o filme. Então, com um, com dez ou com cem espectadores, o cinema estava pago.

Foi assim que as duas almas perdidas naquela sala vazia de público mas plena de razão viram seu curta-metragem da Petrobrás, o mesmo que agora me era recomendado com se eu fosse o mais novo convertido às virtudes do cinema nacional.

Quando confessei minha admiração pelo filme “Querido estranho”, Pedro usou uma frase lapidar: é com filmes assim que o cinema nacional vai acabar se recuperando.

Pois eu digo que é com gente como Pedro e Ana Cláudia que a cidadania vai se consolidando para formar um mundo melhor.

O problema é o preço que vou ter de pagar ao Pedro: vou ter de prestar atenção aos filmes que ele me indicar. É um bom preço. Eu pago.