Ilmo. Sr. João Gomes
Não gosto de mensagens de natal, ano novo, árvores de natal, aniversários e, de modo geral, os cartões que representam essas datas. Nenhuma amargura, apenas um grande cinismo e a certeza de que não estou sozinho nesse repulsa.
Costumo brincar quando me perguntam por que não monto uma árvore de natal em casa ou por que recebo pouquíssimos cartões no fim do ano. Digo que se os cartões vierem com 100 dólares eu não-só monto a árvore, toda iluminada, como ainda penduro cada cartão naquelas ridículas bolinhas ou naqueles laçarotes empoeirados e vermelhos de poeira.
Que meu leitor desculpe o exagero, pois há quem goste desses símbolos.
Explico, como faço todo ano, meus problemas com esses assuntos, revisitando um artigo escrito há uns 10 anos (“Papai Noel”) e que continua atual, ao menos na minha opinião. Confira comigo.
Este ano já estou preparando minha meia para receber um presente do velhinho. Como nunca acreditei nesse personagem de barba, vestido de vermelho, cruzando os céus das imaginações mais férteis em seu trenó encantado, estou tentando me redimir.
No ano que vem, muito a contragosto, de má vontade, sob solene protesto, serei um sexagenário e não quero dar mau exemplo, desacreditando em personagens de minha infância.
Fui examinar os requisitos para merecer a visita de Noel e já comecei em desvantagem. Afinal, como toda criança de cidade, não tenho chaminé e vou ter de resolver isso de outra forma.
Cheguei à lista de boas ações que justificariam meu presente e mandei a Noel, rapidamente, para não haver atraso no Natal.
Não comprei disco de Bruno e Marrone, não assisti Eliana e os Golfinhos, não vi clip de Sandy e Jr.
Música sertaneja, ouvi algumas, mas fui perdoado quando, de relance, descobri que há uma coisa chamada Egüinha Pocotó e alguns lixos da Kelly Ki (será assim mesmo?) bem piores do que música de rodeio, Leonardo, Zezé de Camargo e Luciano.
Não fui ao Ponto Mix nem à Exposição, colaborei o ano todo com o estacionamento do Shopping, não li Paulo Coelho, o que aliás, nunca fiz até hoje e, sobretudo, não vi novela de nenhum tipo. BBB nem se fala, nem sei o que é.
Beijei e abracei meus filhos sempre que pude (muitas, vezes, graças a Deus) e só fiquei sozinho este ano porque a mulher cansou de mim, o que justifica minha crença em Papai Noel, como forma de compensação.
Não comi verdura de nenhum tipo, não tomei coca-cola e não fiz nenhum tipo de ginástica e não fui a nenhum tipo de igreja. Enterro fui a um só e funerais evitei ao máximo, já que desgosto tanto disso que pretendo faltar até ao meu.
Não atendi a nenhuma ligação de telemarketing, tentei processar quem me mandou spam, recusei cartões de crédito e aberturas de “contas especiais”. Não falei com vizinhos, deixei de retornar um monte de ligações de entidades fictícias e de malandros querendo clonar meu telefone.
Sempre que pude, deixei o celular desligado, sob reclamações de amigos, clientes e até mesmo inimigos. Escrevi muitos artigos que poucos (todos amigos) leram e quase ninguém ligou. Publiquei o meu segundo livro, “Cidadão de Festim”, que infelizmente ficou desatualizado quando aposentaram Roberto Jefferson.
Sobre isso, aliás, vivi dois episódios interessantes. O primeiro, foi a apreensão de minha filha e editora Bruna Campos (que este ano foi mais cantora do que editora) com uma das frases do livro acima citado: “Políticos de meu país, renunciem! Antes que tudo vire escombro, saiam do Congresso para que possamos escrever, também, uma nova história” (“A CPI e a mulher adúltera”). Ela achava que alguns políticos ficariam magoados. Bobagem, minha filha. 91% de aumento apagam qualquer mágoa.
A outra experiência foi receber a reclamação de uma professora amiga: “João, achei seu livro verdadeiro, mas muito amargo”. A essa observação, só pude responder que, quando saiu o livro, eu ainda não tinha passado pelos últimos acontecimentos políticos nacionais. Os sanguessugas não tinham sido absolvidos, Lula não tinha sido reeleito... Bem, vá o leitor ao noticiário nacional e me ajude a completar a resposta.
Com tanta notícia ruim nesse final de ano, se não merecermos um presentinho, pelo menos teremos ficado mais sábios e experientes.
P.S. Quando terminava este artigo, recebi em meu escritório um cartão de natal de uma deputada que, definitivamente, mostra como estou certo sobre cartões e mimos natalinos. A mensagem é impressa, ou seja, vale para mim e para milhares de fãs da deputada. A certeza de que ela não me conhece e manda esses cartões apenas por protocolo ou para dar serviço às suas secretárias está no endereçamento do envelope. Em letras garrafais, eu me transformo no “Ilmo. Sr. João Gomes”...
