30.9.06

Adoro Plutão

Olho meu extrato, vejo mais descontos e débitos do que créditos. Ali não tem piedade. Até olhar para o caixa eletrônico já paga alguma coisa. Mensalidade escolar, prestação do carro, água, energia, plano de saúde, remédios, salário de empregada, gasolina...

Quando falo com a gerente, ela propõe um empréstimo a taxas indecentes. Pior, o pouco dinheiro que tenho aplicado com o mesmo banco, é remunerado a menos de 1%, enquanto o empréstimo a tomadores do cheque especial vai a 18, 20%, na maior cara-de-pau.

Preste bem atenção: o meu dinheiro, que é remunerado a taxa vil, me pode ser repassado por juros criminosos, em favor do banqueiro, que ri em minha cara lendo o “Código Da Vinci” em seu iate de Angra dos Reis.

Meus credores, todos achando que posso esperar para receber, dão destino mais nobre aos seus recursos. Assim, todos nós não temos outra saída senão uma velhice digna, limpa e sofrida, talvez com uma aposentadoria miserável para comprar as migalhas do dia-a-dia.

Leio, agora, que a esperança chegou. O governo federal, do generoso presidente Lula, doou 7,5 milhões de reais para a Sociedade Amigos de Plutão, que defende o ex-planeta perante os algozes que lhe negam essa condição.

Embora não possa atinar, nem de longe, com o significado dessa generosidade e, mormente, não tenho a mínima idéia de que parte dessa “defesa” poderia custar quase 8 milhões de reais!

De qualquer maneira, já coloquei toda a família na internet para procurar o endereço da Sociedade Amigos de Plutão e ver o que posso fazer para me inscrever entre os fãs do planetinha. Sou Plutão desde criancinha. Aliás, deve ser por isso que, pirralho ainda, gostava mais do Pluto do que do Donald.

O mesmo governo federal, após ingentes esforços do ministro Agnelo Queiroz, conseguiu implacar a chamada Timemania, que pretende dar dinheiro aos clubes de futebol, teoricamente, para eles saírem do vermelho. Imediatamente, estou organizando um time de futebol, para entrar na farra. No Brasil da era Lula não é o trabalho que tira o cara da miséria, mas a esperteza.

Veja lá se time de futebol falido precisa de ajuda! De qualquer maneira, não vejo diferença entre essa malandragem e a sena ou a loteria esportiva em geral.

E, como corolário de minhas decisões para melhorar minha vida financeira, estou pensando em entrar para o PT, onde o dinheiro rola solto, onde companheiros como Okamoto pagam as nossas contas pessoais, onde 11 milhões acabam de ser distribuídos em folhetos e santinhos políticos, além de dinheiro vivo para comprar dossiês.

Do lado de cá a coisa anda parada. No time do generoso sapo barbudo o quadro se ameniza.

O Estado passou a pão e água nos últimos meses para que fossem pagos os servidores públicos, os companheiros. Fornecedores, prestadores de serviço, empreiteiros, ficaram à míngua para que a folha fosse honrada.

No passado recente, Lula anistiou dívida de africanos, calou-se (acovardado ou solidário, não sei o que é pior) diante do roubo cometido contra a Petrobrás, ante as bravatas de Evo Morales e seus ministros cocaleiros. No Alvorada, onde guardanapos e papel higiênico são comprados em quantidades de 3, 4 milhões de reais, ninguém tem carência. Lulinha está milionário na Telemar, sob o silêncio orgulhoso e cúmplice do papai. Só na minha conta a coisa não pinga. Eu tenho de trabalhar como todos os dias, enquanto a saúde permitir.