Brunilda e as formigas
Encontrei o meu amigo Gabura tomando um lanche com sua querida Sílvia na Pão & Tal. Sentei-me com eles e jogamos conversa fora por uns 20 minutos. Lembrava-me ele, ainda contrariado com minha ousadia, um artigo que fiz contra os sinos da Paróquia de São José, que me acordavam às 6 da manhã.
Na época, apontei o contra-senso de, na era da internet, o padre precisar de carrilhões antigos para chamar os dorminhocos para a primeira missa. Lembrei que os sinos serviam, nos primórdios de todos os tempos, para avisar os moradores que havia lobos rondando a comunidade, para anunciar casamentos, batizados e, claro, os golpes da ceifadeira.
De qualquer forma, escrevi, não havia sentido me acordar para avisar que tem uma missa no romper da manhã. Além de ter sido voto vencido, tantos eram os católicos que me cercavam, adoravam os sinos e não estavam nem aí com meu incômodo de evangélico insensível a toque de sino, ainda recebi uma reprimenda de meu amigo Gabura. Que, pelo visto, não se esqueceu o assunto e ainda me cobra até hoje.
Conto essa história porque pude apresentar ao Gabura um novo comportamento, mais humano, menos estressado. Acho que até ouviria um bom concerto de sinos. Disse que a idade vai chegando, vamos ficando mais suaves, mais condescendentes.
E para mostrar que é verdadeira minha mudança, contei-lhe um episódio exemplar de que não somos mais os mesmos. Fico incomodado com formigas e outros insetos que andam pela casa, especialmente, a cozinha. Por isso, tenho sempre ao lado do sofá um spray Baygon e, percebendo uma formiga andando pela casa, saio, covardemente, em seu encalço.
Shhhh! Shhhh!...
Depois do formicídio, volto ao filme ou ao programa que estou vendo, vitorioso, como se tivesse feito um grande ato de heroísmo.
Ao entrar na cozinha, vi aquela carreira de formigas levando farelos de pão e se acotovelando (formiga tem cotovelo?), engarrafadas na soleira da porta dos fundos. Eram muitas. Voltei à sala, armei-me com meu spray e parti para a batalha. Seria uma matança em regra.
Quando me preparava para disparar o formicida, senti passos leves atrás de mim e suspendi minha batalha. Afinal, quem vai matar tantos indivíduos não quer testemunhas. Mesmo que sejam formigas.
Era Bruna, minha filha. Brunilda, como a chamo desde que era bebê, começou sua catilinária de argumentos, coisa que ela adora fazer, dizendo que as formigas estavam apenas levando farelos de pão para casa, ou, se preferir, para o formigueiro.
Como qualquer pai que leva pão para casa... - disse.
Estavam ali, engarrafadas, embaralhadas, tentando atravessar por baixo da porta, porque não cabiam naquele espaço com sua carga de farelo de pão. Algumas, apontou ela, estavam confabulando para ver como resolver aquele problema de logística.
Para Bruna, a culpa era, primeiro, de Isabel, minha empregada, que não tinha varrido bem a casa, e do seu pai, no caso, eu, que costumo fazer sanduíches no meio da noite e deixo farelos pelo chão.
Elas vêm atrás desse alimento que você mesmo dispensou pelos cantos da cozinha. Por que matá-las se estão levando comida para seus filhos?
Olhei para elas, agachei-me para examinar melhor aquele engarrafamento de formigas em minha porta. Nunca tinha olhado formigas como gente, como pais de família. Era, na verdade, uma cena esquisita ver filha e pai acocorados na cozinha, olhando formigas.
No meu caso, eu estava ridículo, única coisa que me ocorre, com aquele spray de Baygon verde e ameaçador na mão, já sem nenhuma utilidade, ante o argumento de Brunilda.
Abri a porta, elas saíram aliviadas, aos grupos, primeiro, uma a uma, ordenadamente, depois. Foram para algum lugar entre minha cozinha e o terreno ao lado. Provavelmente, foram para a casa vizinha, buscar algum outro ingrediente para misturar ao nosso pão.
Alguns dias são passados, vejo aqui e ali uma formiguinha atrás de comida. Comida que “eu mesmo deixo cair”, vêm-me à mente as palavras da defensora das formigas. Não sinto a menor vontade de matá-las. Penso nas pirralhinhas que ficaram em casa esperando pela mãe e sua porção de farelo de pão.
Gostaria que me visse, nesse momento, o meu amigo Gabura, e me perdoasse o artigo sobre os sinos. Afinal, agora fui promovido a alguém de quem se diz incapaz de matar uma formiga...

1 Comments:
Estou esperando uma nova mensagem. O que está acontencendo?
Beijos.
Jussimara
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