Viva a esperteza
Começa 2006. Gostaria de trazer uma mensagem de otimismo, de confiança no futuro, recomendar aos meus filhos os mesmos valores de honestidade, trabalho, esforço pessoal, temperança que nos trouxeram até aqui, saudáveis, bem formados, cidadãos em que o país pode confiar.Mas, quer saber? Não tenho coragem nem moral para continuar recomendando coisa alguma. O mundo aí fora está me desmentindo há 60 anos. Os jornais trazem escancaradas as manobras de Nelson Jobim, presidente do Supremo Tribunal Federal, para aumentar os próprios vencimentos e com esse aumento, negociado na calada da noite, com Severinos, Sarneys, Lulas e Aldos Rebelos, impor um aumento em cascata para todos os demais servidores do Judiciário abaixo dele.
Lula resolve gastar nossas economias em “asfalto sonrisal”, aquele que se desfaz à primeira chuva. E, para justificar, sai-se com a desculpa de que se ele não fizer essa safadeza, outros, os contrários, farão uso dos buracos na campanha eleitoral. Vale dizer, se ele não fizer o asfalto sonrisal, os adversários vão usar os buracos como propaganda eleitoral. Assim, um político desonesto vai gastar nosso dinheiro para engordar empreiteiras desonestas.
O Congresso, uma esperança, quem sabe? Não. O Congresso demonstrou que também é desonesto, quando votou um “esforço concentrado”, embolsou a grana extra e, imediatamente, saiu de férias para gastá-la em água de coco, praias paradisíacas e lagostas. Tudo por nossa conta. Não, definitivamente, não há como confiar no Congresso.
A Polícia Federal, assim como o aparato de segurança, está contaminado, rendido aos facínoras. A Polícia Federal chegou a roubar a própria Polícia Federal e, em reportagem recente, montava esquema de proteção para cargas furtadas.Avizinha-se uma campanha eleitoral, movimentam-se os candidatos e partidos, usando os mesmos métodos, as mesmas trapaças. Vão gastar dinheiro público em outdoors, panfletos, santinhos, cabos-eleitorais, diretórios, produção de programas de TV. Parte do pagamento será em votos de subserviência, quando estiverem eleitos. Venderão seus votos, sua alma, sua consciência, sua amnésia em relação ao eleitor que os colocou lá.
Então, que esperança posso dar aos meus filhos? Que sinal de futuro posso lhes apresentar para recomendar que continuem puros? Eles já perceberam que montanhas de recursos são sugadas da sociedade e vão para Brasília, de onde desaparecem em transações milionárias e escusas, Brasil afora. Isso não vai mudar, nem em 2006, nem nunca.
Os bancos continuarão tomando emprestado de nossa poupança, a menos de 1% ao mês, e repassando às contas especiais, ao cheque garantido, a 15%, 18% ao mês. Sim, claro, isso é agiotagem, mas o próprio governo diz que no caso dos bancos, não, é apenas um negócio lícito.Esse negócio lícito – entre governo e banqueiros – rende ao sistema financeiro lucros bilionários, comemorados nas páginas de jornais de economia, como se eles trabalhassem para ganhá-los. Sobre esses lucros, o governo recebe de duas formas: em impostos escorchantes, de que os banqueiros não reclamam porque estão ganhando horrores, e em corrupção, mantendo um Ministro que protege o banqueiro e viabilizando a corrupção que mina o tronco e a raiz de nossa cidadania.
Assim, recomeça 2006 e, constrangido, chamo meus filhos ao centro da sala e os libero do que lhes ensinei até hoje, convencido de que o crime compensa e muito. Não lhes posso impor 60 anos de honestidade e respeito, à custa do enriquecimento dos mais sabidos em volta de mim.Recomendo-lhes esperteza, cautela, olho vivo. Nada de devolver bolsas com dólares encontradas em banheiros de aeroporto. Nada de generosidade ou bobo-alegria. Se não podemos vencer o inimigo, vamos costurar uma boa aliança com ele. Sei que para os ímpios estão preparadas as chamas do inferno, mas se estou no Brasil, e se valem as experiências desses anos todos, o inferno vai demorar uma eternidade para chegar aqui.
Enquanto isso...

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