26.6.06

Chico Müller

Na véspera do dia dos namorados, Francisco Müller, ou Chico, ou Chico Eletricista, ou Muller ou Chiquinho, como o conheciam, foi assassinado miseravelmente por uma motocicleta pilotada por um outro Francisco, que será de triste memória.

Um dos “filhos extras” de dona Zilda, como o Ordoñez, Irineu, Maestro Assis e tantos outros que por tantos anos dividiram comigo minha mãe, seu ovo frito, seu prato de feijão com batatas. Nunca entendi como ela conseguia, quase sempre sem dinheiro e catando trocados aqui e ali para manter todo mundo alimentado e trabalhando.

Chiquinho era um desses filhos. Trabalhava numa auto-elétrica consertando liquidificadores Wallita, Arno, geladeiras, rádio e o que mais aparecesse em sua oficina atulhada de tranqueiras. Acho que muita gente usava aquele pequeno espaço da rua 13 de Maio como descarte, desmonte ou, simplesmente, um cemitério de aparelhos domésticos que preferiam deixar lá do que jogar diretamente no lixo.

O povo latino-americano é assim mesmo, dizia Chico. Apega-se a seus aparelhos como se fossem um ente querido, o cachorro da família, o filho mais velho. Só quando a ferrugem ameaça transformar em pó a geladeira é que alguém resolve pensar em comprar uma outra. E, se brincar, compra a nova e põe a velha ao lado, para “dar exemplo” de longevidade e eficiência.

Chiquinho, como poucos o chamavam, embora fosse pequeno, baixinho e afável, era um benfeitor, sem apego a bens materiais. O que valia para ele era a amizade, ser irmão de alguém mesmo sem ter mamado o mesmo leite.

Fiquei sabendo do assassinato pelo jornal Correio do Estado, onde Chico passou a trabalhar como eletricista, mecânico e onde ficou por mais de 30 anos. Era um orgulho que não nos deixava esquecer. Muitas vezes, quando Marcos Fernando Hugo Rodrigues ainda era vivo, com seu chinelão arrastado, seus cigarros emendados um no outro, dividíamos algumas piadas com Chico entre o desmonte de rádio transistor ou de um barbeador.

O assassinato de Chico foi semelhante ao que vitimou minha cunhada Nice, poucos dias antes. Também uma moto, pilotada por um bêbado irresponsável em uma rua mantida escura pela irresponsabilidade pública. Leio também no jornal que em quatro meses 10 pessoas foram mortas na Capital por motocicletas.

O que mais me emociona lembrar sobre o Chico foi um episódio ocorrido em priscas eras, eu com 16 anos, ele com 19. Comprei dele uma Vespa, dando uma entrada suada e assinando 24 notas promissórias. Sem intimidade com a motoca, que apagava ao sinal de qualquer umidade, deixando-me no meio do nada quando eu mais precisava, eu perdi o sono com a compra.

Era uma reclamação sem fim, como se “afogar” a moto fosse culpa do mecânico Chico, que me vendera a Vespa. Ele, paciente, consertava, ensinava, dava dicas e me empurrava de volta para uma nova aventura. Eu, por falta de dinheiro ou por culpar o Chico pela tribulação de novo trabalhador motorizado, fui atrasando uma, duas, três prestações.

Já não comia, não dormia mais, pensando naquelas promissórias na mão do Chico. Um dia, pedi a ele para desfazer o negócio, me devolver as promissórias e o sono. Ele, com aquele sorriso bondoso, de amigo, foi a uma gaveta, trouxe aquele maço de promissórias e me entregou. Sem discussão. Sem pedir nada em troca.

O desfecho desta história é a própria cara do Chico. Quando perguntei pela entrada, na maior cara-de-pau, sabendo que ele não era obrigado a devolver, pois o arrependimento era meu, ele me segredou: “a entrada sua mãe já pego de volta faz tempo”, pois estava precisando e eu emprestei. Diga a ela que não precisa me pagar e fica tudo bem.

Ao voltar à noite para casa, sentei-me à frente do fogão de lenha, com aquelas chamas iluminando toda a casa, fui atirando ao fogo, uma a uma, aquelas malditas promissórias. Nunca experimentei um alívio maior em minha vida.

Não sei o que o Chico fez com a Vespa. Aliás, nunca mais quis saber de Vespas, lambretas ou motos em toda a vida. Mas, naquele episódio, Chico me ensinou a maior de todas as lições: a amizade não precisa de papéis e é construída de pequenos gestos, no dia-a-dia. E são essas amizades que ficam para sempre.

Ao levá-lo, meu irmão, Deus mostrou que soube escolher o melhor entre nós dois.

1 Comments:

At 11/9/07 15:57, Anonymous Anônimo said...

CUIDADO , VELHOTE.

 

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