21.6.06

Pequenas histórias

Happy hour

Pela manhã ou à tarde, quando nos encontrávamos, minha filha e eu, trocávamos um demorado, apertado, carinhoso abraço, como se fosse o último.

Enquanto éramos um, na troca de afagos entre pai e filha, eu sussurrava:

─ A melhor hora do dia...

Isso é bom e mau.

Bom é sentir de novo o cheiro do meu bebê, agora com 25 anos. Ruim é esperar esse momento a cada dia, como ignição da vida.

Beijo espinho

Na sala de tv, jornal caído ao chão, deixo-me adormecer ao cair da noite.

De repente, acordo com espinhos me roçando o rosto, barba com barba, mistura de colônia com suor.

É um outro bebê, que aos 23 anos ainda me faz essa festa, especialmente, quando me surpreende dormindo no sofá.

Agradeço a Deus por ter esse presente, quando tantos pais mendigam por um olhar, por uma palavra, por um abraço, por uma lembrança distante da infância arrastada pelo tempo.

Nesse deserto de carinho em que se converteu o mundo moderno, nessa trilha sonora de internet e celulares, o oásis fica por conta dessa mistura de colônia, suor e barba de meu filho.

Pequenos tesouros

─ Quando você vai me pedir para fazer um arroz-doce?

A pergunta de minha mãe me envolve em irresistível reflexão: como é pouco o que ela me pede e como é valioso para ela quando resolvo atendê-la!...

─ Vem tomar um chá de cidreira comigo!

Essa imagem, associada aos bolinhos de polvilho, com aquele característico sinal de garfo, me atira de volta à infância.

A única coisa que ela quer é que eu ligue e peça, numa manhã qualquer:

─ Mãe, faça um arroz à carreteiro para mim... Com que prazer ela se arrasta, com seus 78 anos, para a cozinha e começa a preparar seja lá o que for para esse filho desnaturado.

Tão pouco ela pede e tão pouco lhe dou.

Algo me diz que essa conta ficará salgada em minha lembrança. Num dia qualquer.

Formiga atômica

O barulho da moto, logo de manhã, me diz que ela está à porta, com seu capacete, sua forma avantajada, sua voz de trovão, a chamar-me para o mundo real.

A Formiga Atômica é como o chamam, porque em sua moto, serelepando pela cidade, é a cópia fiel desse personagem dos quadrinhos.

Para mim é o conforto, minha couraça, meu seguro de vida. Sob sua voz tonitroante, mesmo quando se dirige aos sobrinhos, é de proteção.

Nada nos perturba, nada nos ameaça se ele estiver por perto. E, no entanto, ele mesmo, é um poço de carinho, vulnerável, amigo, afetuoso, engolfado em seus próprios medos.

A melhor forma de transformá-lo em leão ferido é mexer com o seu tesouro, a sua família.

Egoístas, todos nós usufruímos de seu círculo de fogo protetor. Todos temos uma tarefa para acrescentar às muitas que o afligem. E ele as aceita todas e ainda procura extras.

Formiga Atômica, codinome Juvenal.

1 Comments:

At 30/12/06 03:21, Anonymous Anônimo said...

Muito bonito senhor João Campos, é o modo como o senhor, descreve os seus sentimentos sobre o nosso verdadeiro tesouro,a nossa familia,não entendo muito,mas parece poesia,e linda diga-se de passagem.
Um grande abraço do mais novo frequentador do seu blog.

Fabiano Estevam

 

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