Os invisíveis
Descobri-me, esta semana, personagem de revista em quadrinhos. Um herói de gibi. Não foi algo programado. Simplesmente, entre a segunda e a quarta, dei-me conta de que era um daqueles personagens que povoaram minha infância, para infelicidade de minha mãe me achava perdido para os gibis.
Descobri mais. Não estou sozinho. Somos milhares. Formamos uma comunidade imensa e estamos aí, pelas esquinas, nos shoppings, nos ônibus, nas residências, bairro a bairro. Incrível como existimos sem ninguém saber.
Formamos a comunidade dos homens invisíveis. Podemos curtir aquelas fantasias, esgueirar pelos banheiros, bisbilhotar, ouvir as conversas dos salões de beleza, invadir compartimentos secretos, sapear aquele papo de esquina.
O homem invisível. Além dessas possibilidades, que já nem me atraem mais como antigamente, pouco mais posso fazer como homem invisível.
Mas, com a descoberta de que somos milhares, milhões, espalhados pelo Brasil, já podemos começar a pensar em alguma coisa, algum tipo de mobilização dos invisíveis.
Já estou no meio do texto e você deve estar querendo saber como descobri que sou o Homem Invisível e virei esse interessante personagem. Vai querer saber, também, como sei que somos milhões se, precisamente, não posso ver meus colegas de aventura.
Quem me revelou esse maravilhoso sentido da invisibilidade foi o IBOPE, o Datafolha, o Sensus, o Vox Poppuli e tantos outros institutos de pesquisa que estão entrevistando brasileiros de um lado para outro de nosso País.
São sempre 5, 6 mil entrevistados nesta ou naquela pesquisa, indicando a subida ou a queda de um candidato na hora do jornal nacional ou da novela. Minha condição de invisível permite nunca ter sido entrevistado por esses institutos e nunca encontrei alguém que me dissesse, na lata, “eu fui entrevistado pelo Ibope”.
Tenho tias, tios, irmãos, colegas de trabalho, empregados, trabalho para dezenas de sindicatos e bem que poderia encontrar alguém que tivesse respondido a alguma pesquisa. Mas, curiosamente, nunca topei com o homem da prancheta ou falei com alguém que tivesse participado da pesquisa.
Bem, como sou invisível, não poderia mesmo. No entanto, todo dia, no mesmo horário, os institutos de pesquisa mandam suas estatísticas, “dois para mais, dois pra menos”, dizendo que “foram ouvidas 1.100 pessoas” nesta ou naquela cidade. Nós, os invisíveis, não fomos ouvidos, compreensivelmente.
Quem sabe, passando um pouco dessa tinta e com alguma sorte o homem do Ibope me ouça e esses números de pesquisa possam mudar. Até lá, Lula continuará subindo, Alkmin caindo e a vênus platinada continuará desfrutando seu empréstimo de 600 milhões de dólares.
A vantagem de ser governo é poder emprestar dinheiro do BNDES a empresas de mídia com a corda no pescoço. Pensando bem, para onde irá essa dinheirama das novelas, da exclusividade na cobertura da Copa do Mundo, da Fórmula 1, do Jornal Nacional? Será, também, dinheiro invisível?
Não, você não ouviu essa notícia no Jornal Nacional ou no horário nobre. As outras emissoras, também, esperando sua parte no bolo, ficaram na sua, em silêncio. Questão de companheirismo.
De qualquer maneira, tente encontrar alguém que tenha sido entrevistado pelos institutos de pesquisa. Não vale aquela entrevista por telemarketing, infiel, ilusória. Não vamos querer enganar o presidente, não é? Quero gente de carne e osso, que possa ser vista, tocada, ouvida.
Já me disseram que Campo Grande não é uma capital digna de ser ouvida pelo Sensus ou pelo Datafolha. É possível. Mas, como eles sempre dizem que ouviram pessoas nas “capitais brasileiras”, penso que ou Campo Grande não é capital ou se tornou, também, a cidade dos anjos, dos invisíveis.
Em toda história em quadrinhos há sempre um recurso para fazer aparecer o personagem, uma tinta mágica, um spray esperto, que faça materializar-se o homem invisível. Ou, também como sugestão, deveríamos vestir esse pessoal da pesquisa com aqueles jalecos vermelhos, dos cobradores. Aí saberíamos que eles estão na cidade querendo saber em quem votamos, em quem não votamos de jeito nenhum.
A legislação eleitoral não deveria deixar esse pessoal trabalhar como arapongas, como agentes secretos. Para que mistério em um assunto tão importante para o povo brasileiro?
Até lá, nossa entidade continuará firme como a comunidade dos invisíveis.

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