11.4.06

Desencontro com Deus

Vi pelo jornal (e consegui ouvir mentalmente) o clima de velório que se instalou em um show gospel realizado na cidade para virar comício do candidato Garotinho, que vem se apresentando Brasil afora como “candidato evangélico” ou “candidato dos evangélicos”.

Sou evangélico, há muitos anos, e Garotinho é o último dos candidatos em quem eu votaria. Não votaria pelo seu trabalho no Rio de Janeiro, não votaria porque foi ele um dos que inviabilizaram a eleição de José Serra e colocando a fraude lulista no Poder.

Não voto nele de jeito nenhum, pelo que o PMDB vem fazendo no Congresso, se esgueirando pelos corredores carpetados e permitindo as falcatruas da absolvição de corruptos, sob o comando cangaceiro de Sarney, Michel Temer e outros “generais”.

Onde está Garotinho durante esses movimentos? O PMDB poderia, com o peso de sua bancada, até pedir o impeachment de Lula, mas se agarra ciumentamente aos cargos e às mordomias que ganhou do governo.

Parodiando Jesus, no alto do Calvário, “Garotinho, eis aí o seu partido; PMDB, eis aí o seu líder”. Ambos se merecem, ambos são do mesmo tecido e vestem o mesmo corpo esquálido e doente.

Não votaria em quem cita a Bíblia para se eleger, porque a unção na Bíblia era uma imposição de rei ou governante de cima para baixo. Era o costume daqueles tempos. Hoje, a unção é das urnas, do voto, o poder é de baixo para cima, embora o povo não saiba disso.

Não será por muito repetir que Garotinho será presidente.

Em sua campanha desonesta, o falso brilhante sai pelo país organizando “shows evangélicos”, seguindo o mau exemplo dos demais partidos que organizam grandes eventos com artistas sertanejos, trios elétricos e grandes fanfarras.

O povo vai ouvir a música de sua preferência, joga papel picado, grita slogans, e, meia hora depois, a caminho da vida miserável em que foram afundados pelos políticos no Poder, nem se lembra da última mentira ouvida no palanque.

Esse mundo é tão falso que os próprios artistas costumam cobrar o dobro, o triplo de seus cachês se o show é político, ou seja, a roubalheira já começa na campanha. O povo já começa a pagar o show de seu artista pelo dobro do que vale, pois, nenhum show é de graça. O preço será pago, como diria Chico Buarque, em “tenebrosas transações”.

A legenda da melancólica foto (jornal O Estado) diz: “por causa de um público muito abaixo do esperado no show gospel realizado ontem, em Campo Grande, o pré-candidato à Presidência da República Anthony Garotinho, do PMDB, desistiu de comparecer ao evento conforme estava programado”.

Era a foto do desencontro entre Jesus e Garotinho. Jesus, compreende-se, não foi ao encontro porque não era um culto e sim um show político. Garotinho não foi porque o público não estava à altura de sua ambição presidencial. Registra-se em um a sabedoria de evitar ser bobo-da-corte para objetivos escusos, em outro a falta de respeito com o seu público, que é pequeno mas é seu.

Tive oportunidade de conversar com algumas pessoas simples, que não compreendiam bem o noticiário político e queriam algumas explicações. Deliciei-me em explicar que o PMDB é farinha do mesmo saco em que está o PT. Não há diferença. Ambos estão no Poder, para sua glória e para sua desgraça. No caso presente, para desgraça do Brasil.

Mostrei que não temos partidos organizados no Brasil, com programas, estatutos, comportamento ético. E dei exemplos aqui mesmo: Delcídio, filiado ao PT, não é considerado petista porque indicou companheiros à cassação na CPI dos Correios. Puccinelli, filiado ao PMDB, se credencia a ser governador por ter sido bom prefeito de Campo Grande, não por ser companheiro de Sarney.

É a política nacional, atualmente.

Garotinho, de qualquer forma, que é dado à leitura da Bíblia (embora não tenha certeza de que parte ele esteja lendo atualmente), deve conhecer muito bem a figura dos falsos profetas e do destino que lhes está reservado.

O Brasil precisa de planejamento, de modernidade, de crescimento sustentado, que gere empregos e renda para os brasileiros. Não precisa de maná nem de cesta básica, bolsa escola, sanduíches para manifestantes do MST. O Brasil precisa de um bom governante, não de Antônio Conselheiro.

Aos evangélicos que me têm ligado sobre o assunto, lembro que Garotinho está apenas pavimentando sua estrada para o Governo do Rio de Janeiro. Guardem suas Bíblias e não entrem no papo do falso profeta. Na dúvida, lembrem que Jesus, que é sábio, nunca entraria no mesmo time de José Sarney, Temer e Garotinho.