7.3.06

Lendo e aprendendo

Bem, agora os ladrões de arte já sabem que os quadros roubados valem 110 milhões de dólares. Ou de reais? Ou de euros? Isso não importa muito mais.

Por que para a imprensa esses valores são tão importantes? Será que aumenta o interesse da notícia? Não bastava dizer, como foi dito, que os quadros eram de Picasso e Matisse? Todo mundo inteligente sabe que num leilão internacional esses quadros valem milhões.

Aqui, na terrinha, a informação só atraiu a atenção dos bandidos e isso aumentou o volume de roubos. Tudo começou com alguns castiçais de prata em igrejas do interior. Os malandros queriam derreter a prata e vender aqui e acolá.

A matéria de então disse que a arte sacra estava cada vez mais valorizada no mundo do crime. Pronto. Começaram a levar quadros e imagens religiosas e agora foram aos museus. Apareceram, como era de esperar, os “assessores” do crime, entendidos em arte, claro. Os bandidinhos mixurucas estavam com listas! Com listinhas onde iam anotando: o Picasso é assim, o Matisse é assado, esse Rubens tem esse detalhe, o Rembrandt fica no setor tal.

É o fim da picada. Não sei se vocês perceberam, voltei a um assunto que já é velho por aqui: a mania de se dar valor ao produto roubado, ao caminhão de carga desviada, ao pacote de maconha, ao lote de cocaína. Tudo tem preço de etiqueta: 100 milhões, 10 milhões, 60 milhões.

Esse costume de nossa imprensa vem transformando estudantes em “mulas”, motoristas de caminhão em piratas da estrada, desempregados em assaltantes. Esse é um fator exclusivamente atribuído à mídia.

Certa vez, escrevi que quando a imprensa não faz a contabilidade do crime, dando valores às quinquilharias, ensina o jeito melhor de assaltar um consultório médico e um condomínio de luxo. Afinal, onde mais se pode ler que um ladrão bem vestido, gravata, articulado marcou consulta com uma dermatologista e, uma vez atendido, “levou-a” num tour pela cidade sacando todos os limites de seu cartão de crédito? Na mídia.

Os ladrões, agradecidos, não-só repetiram essa estratégia como a melhoraram com muito valor agregado.

Foi também na imprensa que aprendi que camionetas Hylux, Land-Rover, Troller e Toyotas são mais vendáveis no Paraguai do que os carros domésticos. Fiquei sabendo até alguns valores que se pagam na Bolívia por essas preciosidades. Recebi a dica de que os bolivianos nem precisam dos documentos do veículo. Pra que o receptador boliviano vai precisar disso?

Lembram-se do golpe do seguro? O próprio dono do veículo o leva até a Bolívia, vende-o e denuncia o roubo no interior de São Paulo. Trinta dias depois, recebe o seguro e fica rindo de nossa cara. Aprendeu onde? Aqui, no jornal. Entendeu?