20.12.05

Rábula chefe

Edison Benjamin Zortéa foi chamado de repente para projetar qualquer coisa lá em cima. E deve ser algum projeto muito importante, porque o Rábula Chefe não mexia com coisa pequena. E se o conhecemos bem, deve estar rabiscando sem parar e é bem capaz de reprojetar o Paraíso. Conheci-o há uma pá de anos, 1982, talvez mais. Naquela época, já admirava seu trabalho maluco – construir um silo de concreto no Rio Vermelho, no meio da Amazônia, para uma empresa acoplar uma turbina e dessa fusão nascer o milagre da energia. Já naquela época – e depois prosseguiu pelo tempo que dividimos -, ao ver minha cara de espanto, tirou a lapiseira do bolso e começou a rabiscar na capa de um processo qualquer sobre minha mesa, explicando-me força centrífuga e centrípeta, nem ligando para minha dificuldade em entender aqueles conceitos de engenharia, especialmente, eu, que fugira de matemática, de geometria, de física, para ser advogado. Não, decididamente, ele estava ali, falando, rabiscando, fazendo cálculos para si mesmo, como se eu fosse apenas um aluno de primeiro ano. Decididamente, sua lapiseira, sem a qual, segundo seu irmão Ennes, ele ficava mudo, repaginava a vida, reordenava o caos e, quer saber?, sempre desconfiei que ele adorava tanto um desafio que era capaz de deflagrar a tempestade só para poder domá-la. Mais de vinte anos de convivência e ainda me lembro de suas lições – não, não eram lições de engenharia! – sobre direito ou, melhor dizendo, sobre sua indignação com as mazelas de justiça. Eram horas de conversa, na serra de Santos, dirigindo como engenheiro, isto é, mal, e me contando suas aventuras pelo país, construindo sólidas estruturas para Cargil, Petrobrás e outros monstros. Estruturas que, fisicamente, vão durar mais do que ele, mas são infinitamente menores do que o seu gênio. O pior de tudo é que, com toda sua inteligência impaciente, aflita, com toda aquela nossa conversa sobre células tronco, a caminho de Santos, para uma audiência, sobre sua filhinha pequena, única vertente que o deixava meio bobo, ele descuidava da saúde, vivia em aeroportos e canteiros de obra. Naquela viagem, aprendi tanto quanto possível sobre as esteiras rolantes da Copersúcar e seus grandes armazéns, o porquê de fazer tanto calor naquela imensidão de sacaria branca. O maior barato era receber sua ligação, da Bahia, de Mato Grosso, de São Paulo, identificando-se como “aqui é o rábula chefe” (rábula era o que podia advogar pela experiência, sem formação acadêmica) e deitava falação, ensinando-me o que fazer no processo, como fazer aquela petição, dando palpite sobre aquele despacho do juiz. Guardo alguns de seus desenhos, dizendo-me como o solo argiloso de Santos podia receber uma “injeção de concreto” para ficar mais firme. Não os juntei ao processo para não deixar o juiz mais louco do que já é. Acho que Édison pregou uma peça em todo mundo. No nosso último encontro, disse-me que estava preocupado com uma hérnia. Tirou a lapiseira e desenhou a hérnia, frente, verso, corte diagonal, fluxo, refluxo. Não entendi nada, como sempre. Mas fiquei olhando e pensando nos crec-crec de sua lapiseira, quebrando-se e consumindo-se em lições de anatomia gástrica. Era seu jeito brincalhão. Piadista. Uma vez me convidou para comer “uma leitoa” e só quando mandou servir, me disse que era paca! Na verdade, o safado devia ter atropelado um animal qualquer na estrada e estava me empulhado. Só esperei que não fosse um gambá, pois, uma vez mais, eu sabia bulhufas de caça. Agora a piada se repete: quando todo mundo pensava que a sua preocupação era o esôfago, a ceifadeira veio atrás do coração! Ao acompanhá-lo no seu último dia por aqui, só conseguia pensar em pegar sua lapiseira e colocar ali, no seu bolso, para ele rabiscar os pergaminhos do Criador. Já avisei o pessoal lá de cima para deixar sempre uma folha branca disponível para ele, senão ele risca a Bíblia de São Pedro. Disse também que quando ele estiver falando muito, basta tirar sua lapiseira e ele se cala por uns dois minutos. Como em silêncio ficamos, sem o nosso Rábula Chefe. http://www.midiamax.com/colunistas/?ver=mais&coluna=5

1 Comments:

At 12/2/06 21:05, Anonymous Anônimo said...

Parabens. O texto ficou perfeito na descrição do nosso inesquecível Edison. Nós que o conhecíamos tão bem nos emocionamos ao ler a sua homenagem a esse grande homem.
Obrigado , e nos sua familia esperamos que quando , da nossa viagem final tenhamos tambem um amigo assim que tenha o que dizer a nosso respeito com o carinho de uma grande amizade.

 

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